fevereiro 3, 2010 08:29 PM
TERTÚLIA BD DE LISBOA – 306º ENCONTRO – 2 DE FEVEREIRO DE 2010
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E voltamos novamente às Tertúlias. Decorreu ontem, 2 de Fevereiro, o 306º Encontro da Tertúlia BD de Lisboa, que teve como Convidado Especial Osvaldo Medina… no sítio do costume.
Aqui fica, como habitualmente, o material distribuído por Geraldes Lino. Atente-se na prosa do programa: “… Angola era ainda território integrante de Portugal…” – há quase 36 anos que não lia este tipo de frases e tive que ler duas vezes para acreditar e confirmar a data do dia, não fosse termos mesmo recuado para os tempos “da outra senhora” sem ter dado por isso, apesar de actualmente me parecer que as coisas estão, em certos aspectos, a ir um bocado por aí. Não acredito minimamente que o Lino seja um saudosista dos “outros tempos”, mas a ânsia de querer ser politicamente (e não só) correcto, leva-o a coisas deste género – que são mesmo piores do que insistir em chamar “Espanha” aos “territórios integrantes” da monarquia castelhana. Que diabo, “território integrante”?
Depois, algumas fotos e um pequeno vídeo.

A auto-biografia do Convidado Especial (Osvaldo Medina revela-se um dos santos cruzados contra o tabaco):


Este simpático novo tertuliano com quem Geraldes Lino conversa, não é, acho eu, um “menino de deus”. Mas que trazia uma fatiota a destoar… lá isso trazia!
Geraldes Lino e Osvaldo Medina, com o original do Convidado Especial, que seria sorteado e que calhou, como já vai sendo hábito com este tipo de originais, ao Zé Manel…

Paulo Marques distribui o Tertúlia BDzine #147, de cuja BD é o autor:

A mesa do Convidado Especial: o CE Osvaldo Medina, Mário Freitas e David Soares, que espera – e esperamos todos – o lançamento do seu novo romance “O Evangelho do Enforcado” (então ó David, isso são maneiras, pá?)

O vídeo começa com a imagem do novo televisor gigante d’A Gina, quando o Sporting estava a levar 5 a 1 dos tripeiros mafiosos (depois reduziu para 5 - 2) …

fevereiro 1, 2010 07:34 PM
37º FESTIVAL INTERNATIONAL DE BANDE DESSINÉE DE ANGOULÊME – PRÉMIOS + BDPRESS (RECORTES DE IMPRENSA) #111 – TEXTO DE PEDRO CLETO NO JORNAL DE NOTÍCIAS DE HOJE.
Os prémios do Festival de Angoulême foram ontem conhecidos: o GRANDE PRÉMIO foi para Baru (ou, de seu verdadeiro nome, Hervé Baruléa), que foi um dos principais destaques da XI Edição do Salão Internacional de BD do Porto, em 2001. Pedro Cleto fez-lhe uma entrevista, que pode ser lida AQUI.
Ficam os prémios desta edição do FIBDA (eh, eh…) e o texto de Pedro Cleto publicado hoje no Jornal de Notícias.
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Baru, Grande Prémio Cidade de Angoulême 2010.

O símbolo dos prémios deste ano, chamado a "fera"!!!
De cima para baixo e da esquerda para a direita:
GRANDE PRÉMIO ANGOULÊME 2010
PRÉMIO DO PÚBLICO
PRÉMIO DO JÚRI
PRÉMIO MELHOR SÉRIE
PRÉMIO AUDÁCIA
PRÉMIO BD ALTERNATIVA
PRÉMIO PATRIMÓNIO
PRÉMIO INTERGERAÇÕES
PRÉMIO JUVENTUDE
PRÉMIO OLHARES SOBRE O MUNDO
PRÉMIO REVELAÇÃO






Jornal de Notícias, 1 de Fevereiro de 2010
GRANDE PRÉMIO DE ANGOULÊME PARA BARU
F. Cleto e Pina
Após quatro dias intensos, o 37º Festival Internacional de BD de Angoulême encerrou ontem com uma boa notícia para os amantes da 9ª arte: Hervé Baruléa, conhecido como Baru, foi distinguido com o Grande Prémio de Angoulême, pelo que irá presidir à edição de 2011, que se antevê desde já como popular e com uma banda sonora de rock and roll.
Autor militante, à margem de correntes e estéticas, mas também consagrado, popular e original, Baru, distinguido duas vezes com o prémio para melhor álbum por “Le Chemin de l’Amérique” (1991) e “L’Autoroute du Soleil” (1996), possui um traço não muito atraente mas extremamente eficaz e dinâmico, com que conta histórias de gente simples, muitas vezes marginal, com os (sub)mundos do boxe e da música como fundo recorrente.
Nascido em 1947, iniciou-se como autor de BD na revista “Pilote” em 1982, foi convidado de honra do XI Salão Internacional de BD do Porto em 2001 e três dos quatro tomos de “Les années Spoutnik”, uma BD autobiográfica sobre a sua infância, foram editados no nosso país pela Polvo.
Entretanto, entre os 3599 novos álbuns lançados em França em 2009, o festival, entre outros, distinguiu: Álbum do Ano “Pascal Brutal - T3 : Plus Fort Que les Plus Forts” (Fluide Glacial), de Riad Sattoufd, uma série que poderá vir a ser editada pela ASA; Prémio Especial do Júri: “Dungeon Quest” (L’Association), de Joe Daly; Prémio da Série: “Jérome K. Jérome Bloche” (Dupuis), de Alain Dodier; Revelação: “Rosalie Blum - T3, Au Hasard Balthazar!” (Actes Sud), de Camille Jourdy; Património: “Paracuellos – Intégrale” (Fluide Glacial), de Carlos Giménez.
janeiro 30, 2010 07:14 PM
BDPRESS (RECORTES DE IMPRENSA) #110 – Carlos Pessoa (Público) SOBRE O 37º FESTIVAL DE BD DE ANGOULÊME

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Público – P2. 29 Janeiro 2010-01-29
Festival de Angoulême
BANDA DESENHADA DESAFIA A CRISE
Por Carlos Pessoa
Num cenário de restrições e de tensão entre a organização e as instituições apoiantes, começou ontem a 37.ª edição da festa francesa da BD, onde são esperados mais de 200 mil visitantes
O contrato que liga o Festival Internacional de BD de Angoulême à região francesa da Charente termina este mês e a renegociação anuncia-se dura e difícil. A crise económica impôs restrições orçamentais às instituições públicas que viabilizam o festival e aspiram a ter um maior controlo sobre os despesas - um corte de 140 mil euros num financiamento global público de 1,5 milhões de euros -, superadas este ano pelo reforço da participação financeira de entidades privadas, que asseguram os restantes 1,5 milhões do orçamento anual.
Nada disto deverá interessar muito aos mais de 200 mil visitantes que são esperados na pequena cidade francesa até ao próximo domingo. O que os traz são as grandes exposições, os concertos ou as numerosas iniciativas que animam as ruas, as praças e os edifícios durante os quatro dias do mais importante festival europeu de banda desenhada. E, sobretudo, o contacto directo com uma legião de autores em busca de um desenho ou de uma dedicatória nos álbuns dos seus heróis preferidos.
Há na programação motivos de interesse para todos. A chamada BD de "grande público" está presente através de uma exposição "lúdica e familiar" consagrada a Léonard (de Turk e De Groot), uma série de humor desconcertante que já vendeu mais de seis milhões de álbuns. A trajectória dos Túnicas Azuis (de Raoul Cauvin e Willy Lambil) é outro exemplo de concessão aos gostos populares, devidamente reconhecida por um público fiel que é responsável por tiragens superiores a 160 mil exemplares de cada novo álbum.
O Mangá Building (antigo Espace Franquin) acolhe a exposição One Piece, sobre a série com o mesmo nome, mas também todas as novidades nos diversos segmentos da BD japonesa, cinema de animação ou jogos de vídeo. É o terceiro pilar do edifício dedicado à BD comercial.
A obra de Blutch, consagrado em 2009 com o Grande Prémio da Cidade de Angoulême, é dada a conhecer através de uma grande exposição que recorda as duas décadas do seu percurso pessoal. Pela mão deste autor original é apresentado pela primeira vez em Angoulême Fabio Viscogliosi e o seu universo poético, numa antecipação à publicação pelo editor L"Association de Da Capo, uma recolha de 400 pranchas do seu personagem animal (um gato) mais conhecido.
Para o investigador e enciclopedista francês Patrick Gaumer, a exposição colectiva dedicada à BD russa contemporânea é um dos mais fortes motivos de curiosidade. "Estou ansioso por descobri-la", confessou ao P2 na véspera de partir para Angoulême. "O festival também é isso - o prazer de descobrir coisas novas e autores novos. Darmo-nos conta também de que a banda desenhada é verdadeiramente um modo de expressão internacional."
Os nomes destes jovens autores de um país onde o mercado da BD não tem expressão real - pelo menos nos termos em que o entendemos no Ocidente - nada dizem, mesmo aos mais conhecedores. O desafio que lhes foi proposto é sugestivo: como pôr em imagens uma identidade nacional que emergiu de um mundo (o universo soviético) praticamente desaparecido?
Cent pour Cent é a exposição que poderá levar os visitantes ao novo Museu da BD, inaugurado em Junho. Será seguramente o caso do estudioso Dominique Petitfaux, para quem esta é a "grande novidade de Angoulême": "Cem desenhadores contemporâneos fizeram uma prancha de banda desenhada que é a reinterpretação de um grande autor clássico; podemos comparar as duas pranchas (Muñoz reinterpretando Pratt, etc.)". São mais de 700 originais do fundo do museu, a que se juntam as 100 pranchas concebidas expressamente para esta exposição.
Outro núcleo que vale a pena explorar é o da Expo Louvre. Reúne os trabalhos de quatro autores de grande nível (Nicolas de Crécy, Marc-Antoine Mathieu, Eric Liberge e Bernard Yslaire) que há um ano deram corpo à exposição que pela primeira vez fez entrar a banda desenhada no Louvre com o seu olhar criativo e livre sobre a realidade do famoso museu.
Uma exposição monográfica permite conhecer melhor Fabrice Neaud, um jovem autor já premiado, em 1997, pelo primeiro volume da sua obra. O desenho de humor e satírico é o corpus da mostra Desenhadores de Humor, que reconstitui a cronologia deste género desde o seu aparecimento na imprensa.
Mais autores vivem da BD
Entre as iniciativas paralelas, são aguardadas com expectativa os Concertos de Desenho, cujo cenografia é assinada este ano por Zep (criador de Titeuf) para a performance de Blutch e do seu espectáculo de lápis na mão acompanhado pela música de Irène e Francis Jacobs. Bilal assegura Cinémonstre, um documentário que revisita as suas três primeiras longas-metragens. A dupla Schuiten-Peeters, por seu lado, irá explorar os arcanos das Cidades Obscuras, megaciclo de banda desenhada desenvolvido por ambos há mais de 25 anos.
Os já tradicionais Encontros Internacionais anunciam, este ano, um leque muito sugestivo de participantes - Joe Sacco, Ivan Brunetti, Dash Dash Shaw, Davis Heatley, Kevin O"Neill, Alan Martin, Seiichi Hayashi, Bilal ou Floc"h & Rivière - que irão reflectir sobre os caminhos presentes e futuros da BD mundial.
À laia de contextualização, o relatório anual de Gilles Ratier, secretário-geral da Associação de Críticos e Jornalistas de BD, faz o balanço de 2009. Apesar da crise mundial, diz, o ano foi marcado pela manutenção do dinamismo da edição de BD de língua francesa; a convergência com outros meios de expressão (a chamada estratégia media-mix que engloba a edição digital, ainda incipiente, mas também suportes como o DVD ou os jogos de vídeo); e a diversificação dos leitores tradicionais.
Registou-se uma desaceleração da produção (mais 2,4 por cento, contra os 10,04 registados em 2008 comparativamente ao ano anterior), traduzida em 4863 livros, dos quais 3599 novidades. A tendência de concentração manteve-se, com nove grupos a assegurarem 60 por cento da produção. O número de autores a viverem da BD aumentou (1439, contra 1416 em 2008). Em contrapartida, o número de revistas especializadas em BD sofreu uma nova redução (64 contra 71 em 2008).
Quase uma centena de séries (99, mais quatro do que no ano anterior) "beneficiaram de enormes presenças no mercado [mais de 50 mil exemplares de tiragem] e continuaram a manter-se entre as melhores vendas de todos os tipos de livros", escreve Ratier. A coroa de glória vai para os 1,2 milhões de cópias do álbum comemorativo dos 50 anos de Astérix, havendo mais nove álbuns que superaram os 220 mil exemplares de tiragem.
janeiro 29, 2010 06:09 PM
JÁ ESTÁ A DECORRER O 37º FESTIVAL DE LA BANDE DESSINÉE DE ANGOULÊME 2010 + um BDpress (recortes de imprensa) #109 – TEXTO DE PEDRO CLETO NO JN SOBRE OS AUTORES PORTUGUESES PRESENTES EM ANGOULÊME

O 37º FESTIVAL DE LA BANDE DESSINÉE DE ANGOULÊME começou ontem – sob a presidência de Blutch, Grande Prémio de 2009 – dia 28 e prolonga-se até domingo, dia 31. Com um diversificado programa, como é habitual, o Festival dos Festivais europeus (embora não tenha sido o primeiro) pode ser seguido no renovado site: bdangouleme.com e destaque especial para a lista dos candidatos aos prémios, em cujo vencedor será anunciado no domingo.
Curiosamente o site da Associação de Críticos e Jornalistas franceses de Banda Desenhada (ACBD) elegeram como vencedor do seu Grande Prémio de 2010 – o livro do ano de 2009 – DIEU EN PERSONNE, de Marc-Antoine Mathieu, editado por Éditions Delcourt, que nem sequer é candidato em Angoulême… ver AQUI.
Infelizmente não parece haver nenhum editor português entre os cerca de 200 editores presentes neste 37º FIBDA (curiosa esta designação, não é? – conheço isto de qualquer lado – com outros numerais associados –, vocês não?…), o que é um bocado mau para a BD deste país. Lembro que no ano passado estiveram presentes a ChiliComCarne e a ElPep…
Aqui ficam os cartazes e algumas fotos de anos anteriores, mais os banners do site do Festival.
Depois, um texto de Pedro Cleto (sempre em cima dos acontecimentos), no Jornal de Notícias de 27 de Janeiro, sobre a participação de alguns autores portugueses no FIBDAngoulême.
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Pepedelrey, Jorge Coelho e um amigo de ocasião, no Festival do ano passado.
Jornal de Notícias, 27 Jan2010
AUTORES NACIONAIS MOSTRAM OBRAS EM ANGOULÊME
Maior festival europeu de BD arranca amanhã. Esperados mais de 200 mil
F.CLETO E PINA
Começa amanhã o 27.º Festival International de la Bande Dessinée d'Angoulême, em França, a mais importante manifestação europeia dedicada aos quadradinhos. Alguns criadores portugueses vão aproveitar o evento para mostrar a sua obra a nível internacional.
Durante quatro dias, entre os mais de 200 mil visitantes esperados na pequena cidade, haverá cinco portugueses, de portfólio na mão, para mostrarem o seu trabalho aos editores. É o caso de Filipe Pina e Filipe Andrade, autores de BRK, cuja editora "tem reuniões e contactos marcados para colocar o livro no mercado estrangeiro". Ao JN, revelaram que levam também uma BD que Pina desenhou "para a Marvel sobre o Iron Man" e projectos novos, entre os quais "Senhores do fogo", sobre "um bombeiro que, no seu primeiro incêndio, se depara com um monstro de fogo que só ele consegue ver e lhe obedece".
Também Rui Lacas, que em 2006 conseguiu em Angoulême o contrato para publicar, na Paquet, "Merci patron", está de regresso a França, para mostrar "Asteroid fighters", um projecto de super- -heróis bem recebido pela crítica nacional e propostas para uma novela gráfica.
Acompanham-no dois outros membros do Lisbon Studios, João Tércio, que leva os originais do álbum que vai editar em Portugal em Maio, e Ricardo Cabral, para mostrar "Israel sketchbook" e tentar concluir as negociações para desenhar um álbum para uma editora francófona.
No entanto, o destaque vai para as mostras dedicadas a Blutch, Grande Prémio de 2009 e presidente do festival, e às populares séries "Túnicas azuis", "Léonard" e o manga "One piece". O programa, diversificado, tem também lugar para autores experimentais, como Neaud ou Fabio, e para as colectivas Desenhadores de Humor, BD Russa ou 100 por 100, que revela como uma centena de autores reproduziu ou sequenciou uma das pranchas clássicas do Museu da BD local.




janeiro 26, 2010 07:33 PM
RECORTES DE IMPRENSA #108 – Carlos Pessoa (Público) A MORTE DE PIERRE COUPERIE E Pedro Cleto (Jornal de Notícias) Quick e Flupke nasceram há 80 anos
Um texto de Carlos Pessoa no Público de 25 de Janeiro sobre a morte de Pierre Couperie o primeiro europeu que estudou a bd a sério, precursor de alguns outros historiadores de nomeada na BD europeia como Thierry Groensteen, Benoît Peeters, Alfredo Castelli, Leonardo de Sá ou Michel Kempenners, com depoimentos de Leonardo De Sá. Depois um texto de Pedro Cleto sobre os 80 anos de Quick e Flupke, personagens menos conhecidas de Hergé…

Público - P2 • Segunda-feira 25 Janeiro 2010
1930-2009
PIERRE COUPERIE
O PRIMEIRO EUROPEU QUE ESTUDOU A BD A SÉRIO
Carlos Pessoa
Teve um papel determinante no reconhecimento dos quadradinhos na segunda metade do século XX. O rigor e a seriedade na investigação, que eram as suas marcas de água, fizeram escola. Morreu sozinho, em Paris
Discreto na vida, discreto na morte. Pierre Couperie, um dos grandes pioneiros europeus na investigação e divulgação da banda desenhada, morreu sozinho, na sua casa parisiense, no dia 24 de Dezembro de 2009. O corpo só foi encontrado a 5 de Janeiro por alguns amigos próximos, que estranharam o seu silêncio.
Na segunda metade do século XX, Couperie teve um papel determinante na afirmação da banda desenhada como uma arte maior. Mas há bastante tempo que não se falava dele e o facto de ser avesso à exposição pública favoreceu esse apagamento. No próprio meio da BD são poucos os que o conheceram. O investigador Dominique Petitfaux é um deles, tendo-lhe feito uma das raras entrevistas de que há memória.
“Ainda assisti a algumas sessões do seu seminário na Escola de Altos Estudos...”, recorda ao P2. “Pierre Couperie era muito reservado e há muito tempo que quase ninguém sabia nada dele.
Não era pessoa para aparecer muito, sobretudo se pudesse evitar fazê-lo”, acrescenta o estudioso da BD portuguesa Leonardo de Sá.
Os dados biográficos disponíveis são escassos. Sabe-se que nasceu em Montauban (França) em 1930.
Era historiador de formação e foi chefe de equipa do Centro de Investigação Histórica da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris. No currículo de Pierre Couperie conta-se a vice-presidência do Clube das Bandas Desenhadas – o primeiro na Europa –, fundado em Março de 1962 pelo desenhador Jean-Claude Forest (Barbarella), o cineasta Alain Resnais e o crítico Francis Lacassin. Esta estrutura foi responsável pela publicação, em Julho do mesmo ano, de Giff -Wiff , o primeiro fanzine francês e europeu de banda desenhada. Desempenha as mesmas funções na Sociedade Civil de Estudos e Investigações das Literaturas Desenhadas (Socerlid), criada em Novembro de 1964 com Claude Moliterni, Édouard François, Maurice Horn e Proto Destefanis.
Pierre Couperie participa na concepção e realização de todas as exposições promovidas pela Socerlid, e em particular da famosa exposição Banda Desenhada e Figuração Narrativa, aberta em 1967 no Museu das Artes Decorativas de Paris. A maioria dos textos do catálogo, hoje uma peça bibliográfica de grande importância, são da sua autoria.
Nesse ano, Vasco Granja está em França para participar no Festival de Annecy (cinema de animação). Desloca-se a Paris e visita a exposição. O que ali vê deixa-o vivamente impressionado. “Foi a experiência que reconduziu Granja para a BD e a respectiva divulgação nos jornais portugueses”, nota Leonardo de Sá.
A partir de Outubro de 1966, Pierre Couperie assina regularmente textos na revista Phénix, criada nesse ano e com saída regular até finais da década seguinte. Devem-se-lhe igualmente contributos fundamentais na edição e enquadramento das primeiras bandas desenhadas americanas publicadas em França – caso de Little Nemo, Flash Gordon ou Príncipe Valente. No campo da edição, deixa o nome associado à Enciclopédia da Banda Desenhada (1974-75), a primeira a ser publicada na Europa, da qual sairão apenas dois volumes.
Pierre Couperie está presente na organização da primeira Convenção Europeia da Banda Desenhada, em 1969, e faz parte do núcleo que iria assegurar a realização, a partir da terceira edição, do mítico Festival de Lucca (Itália). É também um dos impulsionadores do actual Festival Internacional de Angoulême.
Todos os especialistas ouvidos pelo P2 são unânimes em assinalar a importância do trabalho de Couperie. “Foi o primeiro a demonstrar que se podia estudar a BD tão seriamente como qualquer outra forma de expressão”, diz Petitfaux. “A sua grande força terá consistido em estabelecer pontes entre diferentes domínios, da história de arte ao cinema, da fotografia às disciplinas científicas”, acrescenta Patrick Gaumer, especialista em banda desenhada e autor do Larousse de la BD. Jean-Pierre Mercier, conselheiro científico do Museu da BD de Angoulême, realça o facto de Couperie ter sido “o primeiro a fazer pesquisas na história da banda desenhada francesa numa perspectiva que consistia em inscrever as obras estudadas no contexto da época”. Lembra ainda que Couperie foi, durante muito tempo, o único académico a ensinar BD no seio da Universidade francesa.
Seriedade, rigor e fiabilidade eram as marcas de água de Couperie. “Escreveu numerosos artigos que chamavam a atenção pela sua precisão e pelo elo que estabeleciam com o contexto político”, realça o crítico Gilles Ratier, secretário-geral da Associação de Críticos e Jornalistas de BD. Yves Frémion, membro do colectivo Papiers Nickelés, dedicado à divulgação das artes de imagem populares, destaca que “ele era o primeiro a ser sério no seu trabalho, com todas as informações verificadas, uma visão clara e argumentos sólidos e inteligentes”. Leonardo de Sá, por seu lado, limita-se a citar uma frase do próprio Couperie: “Toda a informação fornecida por uma agência, um editor, um jornal ou um autor deve ser considerada falsa até à sua verificação. Nove em cada dez vezes apercebemo-nos que era efectivamente falsa...”
Quem são os herdeiros?
Pioneiro no estudo e divulgação da banda desenhada, Pierre Couperie deixa uma escola moldada no seu espírito e método? “Os seus herdeiros são os que associam um verdadeiro conhecimento da BD com a utilização de informações verificadas, sem se esquecerem ao mesmo tempo de ter um ponto de vista pessoal e fundamentado. Ou seja, há poucos herdeiros!”, responde Frémion. Cita as revistas Collectionneur de Bandes Déssinées (de Petitfaux), com publicação suspensa, e Hop! (de Louis Cance), a par dos “jovens historiadores” Patrick Gaumer e Gilles Ratier, e reivindica para o colectivo de Papiers Nickelés essa mesma aspiração de “fiabilidade”. Patrick Gaumer admite que Couperie faz parte daquelas pessoas que, um dia, lhe deram vontade de “estudar seriamente a banda desenhada”. Acha que ele “descomplexou muitos universitários e investigadores, ensinando-lhes a verificar sempre as suas fontes de informação”.
Entre os “herdeiros” de Couperie inclui especialistas como Thierry Groensteen, Benoît Peeters, Alfredo Castelli, Leonardo de Sá ou Michel Kempenners. Leonardo de Sá, em contrapartida, considera que “é muito difícil falar numa filiação”:
“Há uma série de estudiosos que têm uma preocupação historicista – é um dos grandes eixos, ainda hoje – e de cruzamento com outras áreas e géneros. Há uns que o fazem com mais rigor que outros – pode dizer-se que esses são os herdeiros de Couperie”.

JORNAL DE NOTÍCIAS” DE 23/01/2010.
Quick e Flupke nasceram há 80 anos
Se é normal associarmos o nome de Hergé a Tintin, a sua obra maior e uma das bandas desenhadas mais celebradas de sempre, o autor criou outros heróis, entre os quais Quick e Flupke, que há exactamente 80 anos eram vistos pela primeira vez em papel impresso.
Tratava-se de dois pequenotes de Bruxelas - revisão ficcionada da própria infância de Hergé - juntos pela amizade, pela vontade de experimentar coisas novas e pela especial queda para provocar pequenos desastres.
A estreia ocorreu no "Le petit vingtiéme" de 23 de Janeiro de 1930, pouco mais de um ano depois de Tintin, e as diferenças entre as duas criações eram significativas. Enquanto o repórter viria a ter longas aventuras, viagens, exotismo, justiça e ordem, Quick e Flupke não saíam da sua Bruxelas natal e viviam um quotidiano igual ao dos outros miúdos, mas as suas partidas provocavam o caos e desesperavam o Guarda 15, vítima recorrente das diabruras em duas pranchas.
O humor em Quick e Flupke, mais tarde decalcado em Tintin para os "gags" com Haddock ou Tournesol, raia muitas vezes o "nonsense", pode ter conteúdos sociais ou politizados (como quando satirizam Hitler e Mussolini), representa-os como diabos (literalmente) e levava-os mesmo a chocar com os limites físicos das vinhetas ou a interagir com o desenhador. E se o traço é o mesmo de Tintin, sente-se uma maior liberdade criativa e o privilegiar da eficácia estética e narrativa.
Com cerca de 250 pranchas publicadas (de forma irregular) durante uma década, Quick e Flupke tiveram nova vida nos anos 80, em versão animada e em álbuns redesenhados e coloridos pelos Estúdios Hergé, a partir das histórias originais.
Esta edição foi lançada em Portugal pela Verbo, com os heróis rebaptizados como Quim e Filipe.
F.CLETO E PINA

Imagem da responsabilidade do Kuentro.
janeiro 22, 2010 01:47 PM
RECORTES DE IMPRENSA #107 – MORREU JACQUES MARTIN – Carlos Pessoa no Público e Eurico de Barros no Diário de Notícias (hoje)

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Com 88 anos, morreu ontem o pai de Alix, Keos, Orion, Jhen, Lefranc, etc…
Aqui fica a notícia, em textos de Carlos Pessoa (Público) e Eurico de Barros (Diário de Notícias, publicados hoje mesmo, dia 22 de Janeiro de 2010.
Público, sexta-feira – 22 Janeiro 2010
JACQUES MARTIN, CRIADOR DE ALIX, MORREU ONTEM NA SUÍÇA
Carlos Pessoa
Primeiro Hergé, depois Jacobi e Morris. Com a morte deJacques Martin, ocorrida ontem numa clínica suíça, desapareceu o último grande nome da chamada Escola de Bruxelas.
"O meu pai morreu esta manhã [ontem] enquanto dormia", disse à AFP Frédérique Martin, filha do criador de Alix, Lefranc e Arno. Tinha 88 anos. O seu editor francês (Casterman) divulgou um comunicado em que falava do desaparecimento do -"último gigante da banda desenhada belga". Mas acrescentava: "Os seus heróis nunca morrem."
Nascido em Estrasburgo (França) em 1921, Jacques Martin estudou na Bélgica, onde iniciou a sua carreira profissional em 1946 na revista Bravo. Quando nasce a revista Tintin (edição belga), dois anos mais tarde, Martin candidata-se. É ali que surgirá Alix, uma banda desenhada que tem como protagonista um jovem gaulês adoptado por um patrício romano. Martin é alguns anos mais novo do que Hergé e Jacobs, mas fará parte dessa geração de ouro formada pelos mestres da chamada linha clara, à qual se associa um inconfundível estilo gráfico realista.
Alix, por seu lado, é o representante maior de uma linhagem – depois prosseguida em Jhen, Arno, Orion, Kéos e Loïs, outros héróis concebidos nas décadas seguintes – caracterizada por uma abordagem das temáticas históricas subordinada a uma grande preocupação de rigor documental.
Fora desta lógica fica apenas Lefranc, um herói jornalista criado em 1952, num registo realista e contemporâneo, por vezes tintado por uma vertente fantástica.
No final dos anos 1980, Jacques Martin foi afectado por problemas oculares graves que o obrigaram a apelar a uma equipa de colaboradores para desenhar as bandas desenhadas que continuaria a escrever - é o caso, entre outros, de Bob de Moor; Gilles Chaillet e Jean Pleyers.
"As suas obras, de estrutura clássica, figuram entre as maiores do género e estão na origem de numerosas vocações",escreveu Patrick Gaumer no Larousse de la BD.
O conjunto das obras de Martin, traduzidas em mais de dez línguas, entre as quais o português, vendeu mais de 15 milhões de álbuns. Só a série Alix, que o PÚBLICO•vai reeditar dentro de semanas, vendeu mais de. sete milhões de álbuns.
Diário de Notícias, sexta-feira – 22 Janeiro 2010
Banda desenhada
MORREU JACQUES MARTIN, 'PAI' DE ALIX
Por Eurico de Barros
Autor era um dos últimos grandes nomes da escola clássica franco-belga.
Era um dos maiores representantes da "escola de Bruxelas" da banda desenhada franco-belga, o último sobrevivente dos Estúdios Hergé, um dos mais antigos desenhadores da revista Tintim e o expoente da BD histórica, que praticamente criou, graças à personagem de Alix (Roma antiga), a mais famosa de sua autoria. Mas também de Jhen (Idade Média), Kéos (Egipto dos faraós), Orion (Grécia clássica), Arno (época napoleónica) e Loïs (reinado de Luís XIV). Jacques Martin morreu ontem aos 88 anos, na Suíça, deixando uma obra sem igual, no rigor gráfico, na minúcia documental e no retrato detalhado das várias eras históricas que abrange e retrata.
Num comunicado, a Casterman, sua editora, lê-se: "Desapareceu o último gigante da banda desenhada." No Larousse de la BD, escreve-se: "As suas obras, de factura clássica, estão entre as melhores do género e estão na origem de numerosas vocações."
Os seu álbuns venderam, no conjunto, mais de 20 milhões de exemplares em todo o mundo, sendo que os de Alix (editado em Portugal pela Asa) atingiram vendas de mais de oito milhões.
Juntamente com Tintim, Blake & Mortimer, Astérix, Lucky Luke ou os Schtrumpfes, Alix é uma das personagens da banda desenhada franco-belga de verdadeira dimensão mundial.
Apenas Lefranc, a única das suas personagens que vive aventuras no mundo contemporâneo, saiu da norma das temáticas históricas. Numa entrevista dada ao DN em 2002, quando veio ao Festival de Banda Desenhada da Amadora, que lhe dedicou uma exposição, dando grande destaque a Alix, Jacques Martin contou que Lefranc foi concebido como herói de um só álbum, A Grande Ameaça (1954). Mas o sucesso deste foi tal que se transformou numa série que dura até hoje.
Nascido em Estrasburgo (França), em 1921, Jacques Martin fez os seus estudos de engenharia na Bélgica. Apaixonado por arte clássica, por história da Antiguidade e por banda desenhada, começou a desenhar e a publicar com o pseudónimo de Marleb, alternando séries cómicas e realistas.
Em 1948, entrou para a lendária revista Tintim, onde começou a publicar as aventuras de Alix, um jovem escravo gaulês adoptado pelos romanos e protegido de Júlio César, cuja primeira aventura foi Alix O Intrépido, e conheceu um sucesso imediato. Alix tem como fiel companheiro outro adolescente, o egípcio Enak.
No Tintim, Martin encarregou- -se também de desenhar rubricas sobre automóveis e aviões, travando conhecimento com autores como E.P. Jacobs, Bob de Moor, Jean Graton ou Albert Weinberg.
Em 1952 criou Lefranc e um ano mais tarde entrou nos Estúdios Hergé, onde colaboraria com o criador de Tintim durante quase 20 anos, saindo após a publicação de Voo 714 para Sydney. A série pedagógica As Viagens de Alix, que criou nos anos 90, tem uma intenção pedagógica, reconstituindo cidades ou civilizações do mundo antigo.
A esta vieram ainda juntar-se Le Costume Antique e La Marine Antique, todas elas executadas com a colaboração de uma equipa de desenhadores e argumentistas, já que devido a uma doença que lhe atingiu a vista Jacques Martin teve de abdicar do desenho em 1992, continuando, no entanto, a assegurar histórias e diálogos, e a supervisão das suas várias criações.
Na citada entrevista ao DN, Martin frisou: "A perfeição na arte nunca é demais." A frase serve como uma luva à sua obra, na excelência da recriação histórica como no classicismo do desenho.
Imagens da responsabilidade do Kuentro:


janeiro 21, 2010 07:57 PM
RECORTES DE IMPRENSA #106 – VINHOS: RÓTULOS NAS GARRAFAS DESENHADOS POR CARTOONISTAS... CONTRA A CRISE.
Falemos hoje um pouco de vinhos!!! É que, para além de nos descrever saídas imaginativas para a crise, mostra-nos também como a banda desenhada (ou, neste caso o cartoon) se dá muito bem com o néctar das uvas. Repare-se que o rótulo é para ser lido de cima para baixo (em tiras verticais, digamos assim), para evitar que o utilizador comece logo por ficar com a cabeça à roda, se tivesse que ler a coisa como tradicionalmente costuma ser feita – em tiras horizontais…
Contudo a ideia dos rótulos desenhados por cartoonistas, é uma reincidência desta marca vinícola… espero que o Leonardo De Sá tenha pachorra para escrever aqui um comentário a preceito sobre a ideia original, que remonta, se não estou em erro a 2005.
Este post também pode ser visto em KUENTRO2 !!!

Público – Suplemento Fugas – sábado, 16 de Janeiro 2010
Vinhos
"Diálogo" para combater a crise
Com a crise nascem também as grandes oportunidades e as grandes empreitadas da vida, numa renovação que se deseja e se adivinha. O"Diálogo" é uma das melhores e mais doutas propostas nacionais para uma renovação no sector dos vinhos.
Rui Falcão
A crise, essa malfadada palavra patente no léxico do dia-a-dia, insiste em perdurar no quotidiano, insinuando-se em todas as conversas, entranhando-se nas preocupações e anseios mais íntimos de cada português.
Uma crise que nos tolhe o ânimo, que instiga medos e preocupações, embarga projectos e investimentos, protela decisões, provocando comportamentos irracionais de prostração e insegurança. A consciência da presença de uma crise estrutural e duradoura continua a gerar sentimentos profundamente derrotistas, perigosos para a sanidade e indispensabilidade da tomada de decisões. Sim, a crise é tremenda, incómoda e perigosa! Porém, muitos persistem em querer desprezar dos ensinamentos da história, desconhecendo que as épocas de crise são também estações de oportunidade, quadras apropriadas para a tomada de risco, fases esperançosas para o investimento, pretextos excelentes para a renovação e crescimento.
Com a crise, com a imposição forçada desta crise, abrem-se novas conjunturas, novos mercados, novos horizontes, novos paradigmas que merecem ser explorados. A crise, apesar de toda a angústia a ela associada, consegue acenar com propostas verdadeiramente inovadoras.
Uma das tendências originadas pela crise, numa das orientações internacionais mais marcantes da actualidade, particularmente visível nos corredores da restauração, é o conceito de low cost superior, materializado na oferta de produtos cuidados e superiores, atraentes e bem embrulhados, transaccionados a preços mais do que justos, maximizando ao extremo a relação qualidade/ preço. Em Portugal, a tendência ganhou relevo especial na restauração, traduzindo-se na proliferação de restaurantes de autor com refeições servidas a preços sensatos e agradáveis, corporizados em nomes como o 100 Maneiras, de Ljubomir Stanisic, Alma, de Henrique Sá Pessoa, Spot Lx e S. Luís, de Fausto Airoldi, Tasca da Esquina, de Vítor Sobral, De Castro Elias, de Miguel Castro e Silva, ou Club, de Henrique Mouro. Todos eles chefes que anteriormente se ocupavam de cozinhas muito mais requintadas e caras... mas de rentabilização difícil ou mesmo impossível. Num simples piscar de olhos, os novos espaços converteram-se em gigantescos sucessos comerciais, de visita impossível sem marcação prévia, confirmando a existência de uma apetência natural pelos prazeres mais eruditos.
Porém, e estranhamente, no vinho tal revolução continua por fazer. Ao invés da grande tendência europeia, os melhores e mais reputados produtores e enólogos portugueses continuam autistas face a este segmento dó mercado, desbaratando a oportunidade de oferecer grandes vinhos, com apresentação primorosa, vendidos a preços adequados. Em Espanha, muitos dos produtores mais consagrados, vinhos de enólogos de prestígio inquestionável como Álvaro Palacios, Benjamín Romeo ou Peter Sisseck, entraram no jogo de cabeça erguida e decidida. Álvaro Palacios, um dos mitos vivos de Espanha, criador de alguns dos vinhos mais cobiçados do Priorato, com vinhos cujos preços en primeur rondam os 450€, acaba de lançar no mercado vizinho o Camins dei Priorat, um tinto muito bem vestido, sedutor e... vendido ao público a apenas 12€! Benjamin Romeo, o eterno senhor 100 pontos Parker, com vinhos mágicos transaccionados a preços estratosféricos, projectou o Predicador... negociado a pouco menos de 20€. Por sua vez, Peter Sisseck, o compositor do vinho mais caro de Espanha, o Pingus, rateado a mais de 600€ por garrafa, oferece agora o Psi, valorado em cerca de 30€, aproximadamente 5% do valor do
Pingus!
E em Portugal, qual dos produtores de prestígio conseguiu descortinar e aproveitar esta oportunidade? A resposta evidente e directa condensa-se no nome Niepoort, através de uma das criações mais talentosas e perspicazes da história recente do vinho português, o tinto Diálogo.
Diálogo, ou melhor, Fabelhaft, Gestolen Fiets, Fabelaktig, Sarvet, Fantasi, Öö Ja Päev, Twisted, Drink Me, Allez Santé, Alonso Quijano, Sásta ou Eto, títulos que o vinho duriense Diálogo vai assumindo conforme os mercados a que se destina, respectivamente Portugal, Alemanha e Áustria, Holanda, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Estónia, Estados Unidos da América, Inglaterra, Bélgica, Espanha, Irlanda e Japão.
A ideia essencial de Dirk Niepoort reveste-se de uma simplicidade atroz e uma intuição feroz, assente num pressuposto que poucos assumem de forma realista, o chauvinismo vinico.
Porque é muito mais confortável comprar um vinho que nos seja próximo, que esteja rotulado na nossa língua, que conte uma história que nos seja familiar, proporcionando o conforto da proximidade cultural. Por isso, Dirk Niepoort insistiu em escolher um nome distinto para cada mercado e, sobretudo, em desenhar um rótulo original para cada país, recorrendo a um carroonista local para ilustrar uma história adequada aos valores e sensibilidade de cada país.
Na versão portuguesa, o Diálogo beneficiou com a contribuição de Luís Afonso, autor das famosas tiras do Bartoon, publicadas diariamente neste jornal há mais de dezasseis anos! A brincar, a brincar, são já 650.000 garrafas de Diálogo a sair do Douro, nas suas múltiplas declinações, vendidas a cerca de 10€, 90 por cento das quais exportadas para doze grandes mercados internacionais. O conceito torna-se ainda mais interessante quando se deduz que a Niepoort conseguiu antecipar com acuidade as grandes tendências internacionais, visto que a primeira edição do Diálogo, na versão alemã Fabelhaft, foi editada ainda em 2004, três anos antes dos primeiros sinais inequívocos da crise!
Será possível fazer algo semelhante com o Vinho do Porto?


NOTA: o rótulo que se apresenta nesta última imagem - dupla, é o tal, que remonta a 2005 e, também a 2006. Aliás, a data no rótulo relacionado com a "crise" - 2007 - (e reproduzido no artigo do Fugas) diz-nos que esta "crise" já vem de longe, né?