dezembro 19, 2009
BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #99 – ESPECIAL NATAL 2009 – MIGUEL ESTEVES CARDOSO (ARG) E NUNO SARAIVA (DES).
Desculpem lá, mas ainda não é desta que entra o tal penúltimo post sobre o FIBDA 2009. Para vos deixar descansar um bocadinho mais e curtirem o fim-de-semana, faltava um recorte natalício a preceito: trata-se da verdadeira história à volta dos três Reis Magos, contada por Miguel Esteves Cardoso (Arg) e Nuno Saraiva (Des): SÓ FICARAM DOIS! Dez pranchas delirantes, publicadas no suplemento especial de Natal da revista SÁBADO, de 3 de Dezembro passado.












dezembro 17, 2009
BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #98 – TEXTOS DE PEDRO CLETO NO JORNAL DE NOTÍCIAS – ANIVERSÁRIO DAS SÉRIES “COMANCHE” E “CLIFTON” E SOBRE OS SIMPSONS.

Antes do penúltimo post sobre o FIBDA/AmadoraBD 2009, temos algum material publicado para vos mostrar: Pedro Cleto escreveu sobre o quadragésimo aniversário da série “Comanche”, de Greg (arg.) e Hermann (des.) e o quinquagésimo da série “Clifton”, de Raymond Macherot. Depois, um excelente artigo sobre os Simpsons, saído no JN de ontem, dia 16 de Dezembro. No final, a minha resposta ao Geraldes Lino sobre a velha questão do chamado idioma « espanhol »… Gostava de vos ver a todos, hoje em dia, a falar o tal idioma se não tivesse havido o 1º de Dezembro de 1640, eh, eh…

Jornal de Notícias 16 de Dezembro
Comanche e Clifton de parabéns hoje
F. Cleto e Pina
Há quatro décadas, eram publicadas as primeiras pranchas de Comanche, um dos mais notáveis westerns da banda desenhada. Dez anos antes, tinha nascido o Coronel Clifton, o fleumático investigador inglês.
A 16 de Dezembro de 1969, os leitores do “Tintin” belga, descobriam uma nova série intitulada “Comanche”. Se as primeiras pranchas, ambientadas num vasto espaço selvagem e com um empolgante duelo logo na página 3, davam o mote para mais um western aos quadradinhos, ela viria a revelar-se uma das mais referenciadas (e reverenciadas) abordagens realistas a um género que a BD explorou até à exaustão, então (ainda) na moda.
O seu argumentista era Greg, rigoroso na construção das histórias, hábil na escrita dos diálogos, que situou a acção no período de transição entre a prevalência da lei das armas e dos mais fortes e a chegada da civilização às regiões mais inóspitas do velho Oeste. E escolheu um lote de protagonistas de todo improvável - Comanche, uma jovem, dona do rancho “666”, o velho Ten Gallons, o negro Toby, o miúdo Clem, o índio “Mancha de Lua” – todos excluídos socialmente, que lhe permitiram abordar em segundo plano questões como o lugar da mulher, o racismo ou o massacre dos peles-vermelhas. E, claro, Red Dust, a estrela da companhia, elo de união entre todos, capaz de potenciar o melhor de cada um, irlandês, ruivo, ex-pistoleiro, decidido e humano. E talvez este seja, também, o adjectivo que melhor define a série: humana porque “Comanche” é antes de tudo um tratado sobre seres humanos, sobre a sua adaptação às circunstâncias e a um novo mundo, sobre superação e sobre amizade.
O desenho foi entregue a Hermann que progressivamente se revelou como um dos grandes mestres realistas europeus, com uma planificação multifacetada e dinâmica, tal como o traço, nervoso, com o evoluir da série mais atraente e depurado, ágil e servido por belas cores, tão capaz de retratar os grandes espaços como o ser humano, de mostrar o quotidiano como os (muitos) momentos de tensão e violência.
Em Portugal, a série foi publicada integralmente na revista “Tintin” e oito dos seus dez tomos foram editados em álbum pela Bertrand e/ou Distri.
Anos mais tarde, em 1989, Greg (ninguém é perfeito…) voltou a Comanche para mais cinco aventuras (a última terminada por Rudolphe, devido à sua morte, em 1990). Mas a verve narrativa já não era a mesma, o tempo do western tinha (também) passado e o traço de Rouge ficava muito distante da arte de Hermann.
Na mesma revista “Tintin” belga, no mesmo dia, mas 10 anos antes, nascia Harold Wilberforce Clinton, coronel aposentado e, por vezes, chefe de escuteiros, para resolver enigmas policiais e de espionagem, secundado pelos seus gatos e por Mrs. Patridge, a sua governanta. Inglês de nascença, fleumático por natureza, inimigo do uso da violência a não ser em último caso, foi criado pelo mestre Raymond Macherot, também autor de Chlorophylle e Minimum, que no espaço de três álbuns lançou as bases da série, concebida com muito humor e uma elegante linha clara, dinâmica e legível. Publicado em Portugal no Tintin e pontualmente em álbum pela Ibís e a ASA, Clifton seria depois continuado (descaracterizado e banalizado), numa vintena de álbuns, entre outros, por Greg, Jo-El Azara, Turk, De Groot e, na actualidade, Rodrigue.

Imagens da responsabilidade do Kuentro.

Texto para a secção Televisão do Jornal de Notícias de 17 de Dezembro de 2009
THE SIMPSONS, 20 ANOS DEPOIS
F. Cleto e Pina
Se alguém tivesse adormecido em frente à televisão há 20 anos e agora, ao acordar, o aparelho ainda ligado estivesse a transmitir a mesma série, ela apenas poderia ser The Simpsons, a mais antiga série televisiva em exibição, já na 21ª temporada nos Estados Unidos.
Foi a 17 de Dezembro de 1989 que a disfuncional família composta por Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie fez a sua estreia como série autónoma, com um episódio especial de Natal, que antecedeu a primeira temporada, exibida entre Janeiro e Maio de 1990. Por isso, ao completar 20 anos, já com contrato assinado até 2011, deixam para trás os 12 anos dos Flinstones, até então a mais longa animação televisiva, e Gunsmoke, antiga recordista, com 20 temporadas entre 1955 e 1975. Mas 635 episódios, mais do que os Simpsons que, até domingo passado, contam “apenas” 450 capítulos. Ou quase meio milhar, se lhes adicionarmos os 48 do período em que existiram como rubrica curta no The Tracey Ullman Show, entre 19 de Abril de 1987 e 14 de Maio de 1989, onde se deu a sua estreia absoluta.
Antes disso, conta a lenda, Matt Groening criou-os num quarto de hora, enquanto aguardava por uma entrevista na Fox, para uma eventual adaptação em desenho animado da sua série de cartoons “Life is Hell”, protagonizada por Sheba e Binky, um casal de coelhos antropomórficos, que mostrava todos os aspectos que infernizam a vida quotidiana, do trabalho ao amor, do sexo à morte. Para não perder os direitos sobre a sua criação de papel Groening, que por vezes também se desenhava nos cartoons, terá rabiscado uns bonecos que viriam a originar os Simpsons tal como os conhecemos. Ou nem tanto, pois a evolução gráfica da série nos primeiros anos é por demais evidente, com o arredondamento das formas, a saída dos olhos das órbitas, um ganho de expressividade e uma melhor definição dos seus volumes. O que não impediu que continuassem a ser feios, com apenas quatro dedos e possuidores de um humor cáustico e cruel, muitas vezes subversivo, que não conhece limites temáticos, apontando as suas baterias ao quotidiano banal dos norte-americanos - cujas mudanças vai acompanhando e assimilando - e aos temas que vão fazendo a actualidade política, cultural, desportiva ou social, satirizando de igual forma o sexo e a morte, a educação e a saúde, a economia e a própria televisão.
Apesar de (ou por isso), têm percorrido uma senda de sucesso planetário, que lhes garante audiências semanais de milhões de espectadores por todo o mundo, gera milhões de dólares de lucro provenientes da venda dos DVD com os episódios e do imenso merchandising associado à marca Simspon, tornou ricos os seus produtores e faz com que desde que os Aerosmith apareceram num episódio em 1991, celebridades de todas as áreas se ofereçam para participar nas histórias, dobrando os seus próprios bonecos.
Que nos continuam a divertir, episódio após episódio, enquanto nos mostram o pior do ser humano. De nós.
(Caixa)
Curiosidades
Até domingo passado os Simpsons protagonizaram 450 episódios regulares mais 48 no The Tracey Ullman Show.
Já conquistaram 23 Emmy, 22 Annie, um Peabody e uma estrela na Calçada da Fama em Hollywood.
Em 1988, a Times considerou-os a melhor série televisiva do século XX.
No genérico da série, quando Maggie passa na caixa registadora do supermercado, o preço exibido é 847,63 dólares.
A cena do sofá que abre cada episódio já variou entre os 5 e os 46 segundos.
Matt Groening escolheu o nome de Springfield para lar dos Simpsons porque nos EUA existem 121 cidades com essa denominação em 36 estados.
Para baptizar os Simpsons, Matt Groening recorreu aos nomes do pai (Homer), mãe (Marge) e sobrinhas (Lisa e Maggie).
Os Simpsons são amarelos por opção do colorista Gyorgi Peluci, porque Bart, Lisa e Maggie não tinham uma linha que separasse o cabelo da testa, e com um tom de pele realista iria parecer que tinham feito uma lobotomia!
Uma cronologia oficiosa dá 39 anos a Homer, 37 a Marge, 10 a Bart, 8 a Lisa e 2 a Maggie. No entanto, as datas de nascimento e casamento apresentam variações entre episódios.
As vozes de quase todas as personagens dos Simpsons são feitas por apenas seis pessoas.
A voz de Bart pertence a uma mulher e na versão dobrada em português do filme, foi também uma, Carla de Sá, quem lhe emprestou a voz.
A célebre interjeição de Homer – “d’oh” – foi proferida 377 vezes nas primeiras 15 temporadas e está registada no The Oxford English Dictionary.
Homer já teve 46 profissões diferentes. E já morreu várias vezes, quase sempre nos sangrentos episódios especiais “Treehouse of Horror”.
Na versão árabe, Home bebe soda e não cerveja e os seus cachorros quentes são feitos com salsichas egípcias, não de carne de porco.
O Q. I. de Lisa é de 159 pontos.
Os Simpsons moram no 742 de Evergreen Terrace (nome da rua onde Groening morou em criança), mas o número da porta também já foi 59, 94, 723 e 1094.
Pelos Simpsons já passaram mais de duas centenas de figuras reais da política, desporto, artes ou economia. Os primeiros foram os Aerosmith, em 1991.
No tempo de The Tracey Ullman Show, cada filme demorava quatro semanas para ficar pronto. Hoje, cada episódio tem cerca de 24 mil desenhos, 8 meses de trabalho e um custo que ronda um milhão de dólares.
Ao longo dos episódios, já ocorreram 31 mortes de personagens, a mais marcante das quais a de Maude Flanders, esposa do beato Ned, empurrada involuntariamente por Homer do topo de um estádio, porque a actriz que lhe dava voz exigia um aumento salarial. Desta forma, foi despedida.
Os Simpsons já foram capa de revistas como a Rolling Stones, Maxim, Playboy ou Super-Interessant e protagonizaram publicidade da Renault, uma colecção de moda de Linda Evangelista ou campanhas pelo consumo de leite ou segurança no trabalho.
Quando os Simpsons andam de carro, Homer é o único que não usa o cinto de segurança.
Um concurso recente para a criação de uma nova personagem para os Simpsons teve mais de 25 000 participantes. A vencedora foi Peggy Sue, que propôs Richard Bomb, um mulherengo sul-americano.
(caixa)
Polémicas
Dado o tipo de humor praticado e a não existência de temas tabus, não surpreende que os episódios dos Simpsons provoquem polémica. A surpresa vem do nível que ela pode atingir.
Durante a campanha para as presidenciais norte-americanas, Homer ao votar em Obama na urna electrónica, vê serem somados dois votos a… John McCain! O alvo da piada era a empresa responsável pelo fabrico das máquinas, que tinha ligações ao Partido Republicano e contribuíra para a campanha de George W. Bush.
A outro nível, o episódio mostrado este fim-de-semana na RTP 2, provocou celeuma quando foi exibido no Reino Unido, por Homer acusar um novo vizinho de ser terrorista apenas por ser muçulmano e chamar Oliver a Alá. A escuta parcial de conversas de Amid leva-o a descobrir que este vai explodir um centro comercial… algo perfeitamente normal para quem trabalha numa empresa de demolições! Na sequencia desta demonstração de xenofobismo gratuito, Homer provoca a demolição de uma ponte.
Em 2008, o presidente venezuelano Hugo Chávez proibiu um canal privado de transmitir os Simpsons na programação matinal infantil devido à sua “má influência americana”. A série de Matt Groening foi substituída pela Marés Vivas.
Num episódio da 19ª temporada, durante uma conversa no bar do Moe, Carl e Lenny dizem que estão cansados da democracia e que preferiam uma ditadura como “a de Juan Perón, porque quando ele desaparecia com alguém… era para sempre e a sua mulher era a Madonna”! Temendo reacções adversas, a própria Fox decidiu não exibir o episódio na América Latina.
Seis anos antes a visita da família amarela ao Brasil provocou uma onda de protestos, quer pela erros primários – os brasileiros falavam espanhol, a Amazónia ficava junto ao Rio de Janeiro – quer pela imagem do país apresentada, com cobras e macacos nas ruas, violência juvenil, sequestros frequentes e apresentadoras de programas infantis sexualmente provocantes. A secretaria de Turismo do Rio de Janeiro chegou mesmo a ponderar processar os produtores da série.
E bem antes disso, em 1996, num dos episódios mais polémicos, o ex-presidente George Bush, muda-se para Springfild em busca de paz. Algo difícil quando os vizinhos se chamam Simpson. Depois de Bart triturar o seu livro de memórias, o ex-presidente responde com palmadas, desencadeando uma guerra aberta entre as duas famílias. Esta foi a resposta a um comentário de Bush em 1990, quando afirmou que preferia que as famílias americanas fossem parecidas com os Waltons – uma simpática família da TV, dos anos 70 – do que com os Simpsons.
Nuno Mata: “Sonho encontrar o bar do Moe ao virar de uma esquina”
F. Cleto e Pina
Nuno Mata, 34 anos, anima o blog My Best Toys onde também há Simpsons, uma família como a nossa, com defeitos e qualidades, mas amarela.
Gostava de encarnar o palhaço Krusty pelo cabelo verde e porque ele é um grande sacana, e sonha achar o bar do Moe. Se um dia os Simpsons vierem a Portugal, será um país de gente fresca e bela, com bêbados em cada canto, velhas cobertas de panos pretos, peixeiras e barrigudos.
Nilton: Homer daria um óptimo português
Nilton, 37 anos, humorista, claro que é fã dos Simpsons, pelo tipo de humor e por retratarem algo que as pessoas reconhecem nelas ou num vizinho, apesar de serem plasticamente feios. Como adora anti-heróis, admira Homer, que é egoísta, invejoso, calão e trapaceiro e daria um óptimo português, e gostava de ver António de Oliveira Salazar como sócio de Mr. Burns na Central Nuclear.
Podem ler-se AQUI e AQUI, no blog do Pedro Cleto “As leituras do Pedro”, depoimentos sobre os Simpson.
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E agora, Well, well, well… (já agora, os ingleses também eliminaram o cymraeg de Gales, o ogaélico escocês e o gaeilge irlandês, línguas célticas que nada têm a ver com o idioma anglo saxónico) respondendo ao comentário do Geraldes Lino no post sobre o Manuel Caldas, continuo a afirmar (e não a defender, porque esta questão é uma evidência histórica, não é uma “opinião” que precise de defesa) que não existe nenhuma língua “espanhola”. O idioma a que o Estado de Madrid – cidade situada bem no centro de Castela –, desde o início do séc. XVIII, começou a chamar “espanhol”, é na realidade o castelhano, toda a gente deveria saber isso (é uma questão de cultura geral). Isto tem a ver com a questão do “apagamento” das diversas nacionalidades (e respectivos idiomas) que existem na dita “Espanha” pelo poder central. Existe até o registo de uma frase paradigmática de D. Gaspar Filipe de Guzmán, conde-duque de Olivares, primeiro-ministro de Filipe IV, num memorandum sobre a política geral da Monarquia Hispânica e dirigindo-se ao rei: “Vossa Alteza terá é que intitular-se «rei de Espanha» e não como tem feito até agora, rei de Castela, Aragão, Portugal, Navarra, senhor da Flandres, duque de Milão, etc… etc… porque é preciso afirmar a Espanha com um conjunto físico da vossa Monarquia Hispânica para fazer face a potências como a França a Inglaterra e o Império”.
Contudo os portugueses saíram (à força) da dita monarquia hispânica em 1 de Dezembro de 1640 e os castelhanos não voltariam a usar o termo “Espanha”, até que um rei francês, o Bourbon Filipe V (rei entre 1700/1746), neto do famoso Luís XIV de França, voltou a usá-lo, definitivamente.
O que pergunto de novo ao Lino - e a todos os portugas -, é como seria se não tivesse havido o 1 de Dezembro de 1640? Haveria hoje uma Hispânia / Espanha, de facto, sob o poder castelhano da dinastia francesa de Bourbon (é verdade, Juan Carlos de Bourbon é descendente directo de franceses e não de “espanhóis”) e a nossa língua oficial seria o “espanhol”!!! Entendidos?
Aliás esta minha “guerra” contra a designação do idioma castelhano, chamado “espanhol”, considero que é uma guerra perdida à partida, porque a falta de esclarecimento das pessoas em geral, é um facto contra o qual não posso lutar – essa questão do Manual Caldas, que diz que tem uma edição dos livros dele em “espanhol” é recorrente e não há como dar a volta a isso. Só gostava de saber se – não tendo havido 1º de Dezembro de 1640 –, ele se consideraria a si próprio “espanhol” e falasse, em vez do português, o tal idioma”espanhol”.
dezembro 14, 2009
BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #98 – Pedro Cleto no Jornal de Notícias – João Ramalho Santos no JL e Entrevista com Manuel Caldas na Visão
LIVROS, LIVROS, LIVROS – Aproveitando a quadra consumista no chamado Natal, aqui ficam algumas coisas sobre livros de Banda Desenhada que serão boas compras nesta altura. Pedro Cleto escreve sobre MUCHA, de David Soares e Osvaldo Medina e sobre ISRAEL-Sketchbook, o livro de apontamentos durante uma visita àquele país desestabilizador do Médio Oriente, desenhados por Ricardo Cabral, onde se juntam algumas imagens sobre o trabalho do Ricardo numa exposição realizada em... Israel. João Ramalho Santos escreve sobre as edições de Manuel Caldas, especialmente sobre TARZAN DOS MACACOS, de Edgar Rice Burroughs, na primeira adaptação para BD por Hal Foster e sobre o FERD'NAND RETORNA, de Mik. Depois temos uma pequena entrevista com Manuel caldas na revista Visão da semana passada, conduzida por Luís Almeida Martins, num recorte enviado pelo José Manuel Pinto.

Texto para a secção de livros da revista In’ de 28 de Novembro de 2009
Banda Desenhada ***
MUCHA
David Soares (argumento), Osvaldo Medina (desenho) e Mário Freitas (arte-final)
Kingpin Books
Marcando o regresso de David Soares à BD, depois de um interregno em que o romance – “A Conspiração dos Antepassados”, “Lisboa Trunfante” - teve a sua preferência, este livro mostra-o à vontade no tratamento de um tema – o terror – que lhe é grato.
Trata-se de uma história simples e banal, é verdade, mas incómoda pelo proximidade da ideia base – baseada numa premissa da peça surrealista “Rhinocéros”, de Eugène Ionesu - e pela forma aberta como é narrada, sem princípio nem fim, o que deixa no ar a ideia de que o que acontece nela pode voltar a ocorrer… num lugar perto de si! Sem levantar qualquer ponta do véu, para não estragar o efeito surpresa, sempre necessário no género, refiro apenas que se trata de uma história quase sem palavras, muitas vezes muda até, mas com muitas moscas, cujo zumbido incómodo e inquietante parece ouvir-se nas pranchas, como “se essa fosse a única banda sonora possível”, escreve, inspirado, Pedro Moura na introdução.
Responsável pelo argumento e pela planificação, Soares entregou o desenho a Osvaldo Medina - revelado com o magnífico “A Fórmula da Felicidade” - aqui coadjuvado pela arte-final de Mário Freitas, que dá espessura e um tom mais rude e grotesco ao traço mais fino e delicado de Medina, ajudando à composição do clima de medo e insegurança que transpira do relato e nos fará olhar para as moscas (nojentas e) banais de uma forma (bem) diferente após a sua leitura.
F. Cleto e Pina

Texto para a secção de livros da revista In’ de 7 de Novembro de 2009
Sketchbook ****
ISRAEL - SKETCHBOOK
Ricardo Cabral (texto e desenhos)
ASA
Este é um livro sem histórias, um livro que desfia – em belos desenhos presos no papel - lembranças, sensações, instantâneos, pequenos momentos banais, daqueles pequenos momentos banais que, todos juntos, formam horas, dias, meses, uma vida.
É um livro com muitas histórias, tantas as que possamos imaginar relacionadas com cada lugar que nos mostra, tantas as que possamos adivinhar em cada rosto que retrata, tantas quantas as que possamos intuir na vida de cada pessoa que cruza as suas páginas.
É um livro com uma única história, a vivida por Ricardo Cabral ao longo de várias viagens a Israel, porque esta é uma obra pessoal: – são as suas impressões, as suas sensações, é o seu olhar transmitido pelos seus desenhos e pelas suas (poucas) palavras.
Um Israel menos mediático, onde não encontramos o país “vencedor da Guerra dos Seis Dias” nem o “opressor dos palestinianos”, mas onde ainda há o Muro das Lamentações, a Igreja do Santo Sepulcro ou a fronteira com Gaza. Mas, acima de tudo, o Israel anónimo, desconhecido, ignorado, tão mais real, feito de paisagens diferentes mas vulgares, de ruas e quiosques, de desertos e praias, habitado por gente diferente, que fala uma língua diferente, mas que é igual àquela com quem nos cruzamos todos os dias. Um Israel que Ricardo Cabral nos revela com os seus desenhos, quase sempre de base fotográfica, mas cujo traço ganha maior espontaneidade, mais vida, mais força quando usa (só ou também?) o esboço do momento.
E se o desenho é agradável, revelador, se prende e dá vontade de mergulharmos nele, o que mais se salienta é a cor, as cores - que o fundo negro das páginas faz sobressair, num contraste bem conseguido - que em muitas páginas parecem bem mais do que tintas aplicadas num papel, transmitindo, quase, o calor abrasador ou a brisa do fim da tarde, que nos fazem procurar o sol que projecta esta ou aquela sombra ou os elementos que as provocam.
F. Cleto e Pina
FOTOS DA EXPOSIÇÃO SOBRE RICARDO CABRAL EM ISRAEL:

Podem ver-se algumas páginas de ISRAEL, AQUI, no blogue do Ricardo Cabral.
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JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 18 de Novembro2009
OBRIGAÇÕES
BANDA DESENHADA
João Ramalho Santos
Na falta de uma grande complexo editorial (mesmo a a ASA tem uma actividade limitada) têm surgido vários nichos especializados, com filosofias diversas, da Mmmnnnrrrg à Vitamina BD. Há, no entanto, uma coisa de que toda a gente convenientemente se esquece. Embora façam queixas mútuas uns dos outros, nem leitores podem obrigar editores a lançar determinadas obras, nem editores podem obrigar leitores a comprar os seus livros. Muito menos podem críticos ou livreiros obrigar uns e outros a seguir as suas iluminadas recomendações. Obrigações só as que cada um impõe a si mesmo, como nas grandes categorias em que, curiosamente, se dividem tanto editores com os seus eventuais clientes: os "Episódicos" e os "Completistas". Num primeiro caso editam-se (ou compram-se) um ou outro volume de uma dada colecção/autor, seguindo-se (ou não) os restantes de acordo com os resultados de vendas ou com uma avaliação crítica/pessoal. Já os "Completistas" não desistem enquanto não tiverem comprado (ou editado) todos os volumes de uma dada série ou personagem, todas as obras de um dado autor, desde qualquer coisa que envolva uma personagem do Incal ou desenhada por Hermann, a fanzines polacos que contenham uma história de José Carlos Fernandes; independentemente das consequências financeiras, do interesse ou da qualidade.
Manuel Caldas é um editor Completista, com critérios, escolhas e expectativas claras. É também exigente ao nível da qualidade do desenho, o que, dado dedicar-se à edição de BD clássica, implica por vezes um notável (e quase obsessivo) trabalho de restauro. Como já se referiu noutras ocasiões, a edição integral do Prince Valiant de Harold Foster era o sonho de uma vida, interrompido por uma desavença com o seu parceiro editorial da altura. Agora a solo Manuel Caldas prossegue a sua actividade, desde logo com uma escolha compreensível. Lance de Warren Tufts (dois volumes já editados) tem claras afinidades com Prince Valiant e Hal Foster, em termos de um traço límpido e grandiloquente, a que se acrescenta um uso de cor por vezes espectacular. E, no entanto, claramente uma obra mais para Ver (já não é nada mau...), faltando-lhe algo do talento narrativo (e da domesticidade) que evitava que Prince Valiant se tornasse demasiado operático. E ainda interessante verificar no segundo volume como a presença de tiras diárias como complemento da prancha dominical não resolvem essa falha.
Tarzan dos Macacos é outra escolha evidente, recuperando o primeiro trabalho em banda desenhada de Harold Foster no final dos anos 1920, quando o próprio ilustrador ainda desconfiava das potencialidades do seu trabalho em geral, e da BD em particular.
Adaptando o romance homónimo de Edgar Rice Burroughs, Tarzan dos Macacos é hoje, apesar de toda a boa vontade, uma obra datada e anacrónica, muito mais conjunto de ilustrações narradas do que banda desenhada. O formato e texto didescálico contribuem claramente para essa sensação, agravada pelo facto de os "topoi" duais fortes e evocativos que marcaram a universalidade da personagem (selva/civilização, primordial/pensado, natureza/cultura) serem concretizados num texto entre o gongórico e o infantil, problema de resto comum a muita literatura do género. Apesar de tudo isso, o trabalho gráfico de Foster merece hoje um novo olhar, sobretudo por parte de quem (foi o meu caso) nunca apreciou muito o resultado final. Fosse por ter sido inicial ou apressado, fosse porque o autor não levou o trabalho tão a sério como levaria o planeamento minucioso de Prince Valiant, a verdade é que o seu traço tem aqui algo de grito primordial e até de erotismo descontrolado que nunca mais se veriam no trabalho de Foster (nem sequer nas suas abordagens seguintes a Tarzan), e que raramente voltariam a aflorar a personagem (a espaços com Joe Kubert). A melhor maneira de abordar esta excelente edição de Tarzan dos Macacos é tentar abstrair do texto, que neste caso apenas atrapalha; mais uma prova que, enquanto BD, a obra não funciona. Mas o desenho de Foster tem aqui, pelas mãos de Manuel Caldas, uma oportunidade para renascer.
O problema do texto não se põe na tira diária Ferd'nand do dinamarquês Mik, a qual mantém no segundo volume as características do primeiro. É uma boa tira muda (o que é diferente de ser «universal»), oscilando entre momentos verdadeiramente geniais (sobretudo quando põe em causa os limites da sua própria representação) e alguma repetição, o que não deixa de ser natural numa tira com estas características. A julgar pelo que foi apresentado até agora, Ferd'nand, tal como Hagar o Horrendo de Dik Browne (a outra tira de Caldas), parece justificar mais uma colectânea do que uma edição integral. Mas, como em tudo o mais, são opções. Edmund White afirmou recentemente que um dos problemas recorrentes da contemporaneidade é haver infinitamente mais escritores (e bloggers, e tweeters) do que leitores. Resta esperar que estes últimos cheguem.
• FERD'NAND RETORNA (tiras de 1938). Argumento e desenhos de Mik. Libri Impressi (www.manuelcaldas.com). 120 pp., 12,50 euros.
• TARZAN DOS MACACOS. ilustrações de Harold R. Foster. Sobre uma adaptação da história homónima de Edgar Rice Burroughs. Libri lmpressi. 70 pp., 12,50 euros.


REVISTA VISÃO DE 10 A 16/DEZEMBRO/2009
Radar
Entrevista
Manuel Caldas
Os americanos só mais tarde descobrem
as suas «pérolas»
Um dos maiores conhecedores mundiais de BD norte-americana, o português Manuel Caldas, 50 anos, tem vindo a restaurar e a reeditar a expensas suas clássicos «perdidos», como Príncipe Valente e Tarzan de Foster, Lance de Warren Tuftts ou Krazy Kat de Herriman
POR LUÍS ALMEIDA MARTINS
O Manuel Caldas e capaz de ser o maior fanático português de comics norte-americanos. Acha que é mesmo?....
Bom, pelo menos sou eu que tenho dado mais testemunhos públicos disso. Mas não é nada de que me vanglorie. Pelo contrário: o que eu gostaria era que houvesse muito mais gente com igual paixão pela velha banda desenhada americana dos jornais.
Mas a que se deve, afinal, essa sua paixão?
Não sei. Tanto quanto me lembro, logo em pequeno, ainda antes de andar na escola, já me atraíam muito as histórias ilustradas publicadas nos jornais. O que não se passava com as outras crianças...
O recanto da sua casa onde trabalha é uma espécie de «santuário» da banda desenhada...
É, antes, o «meu» santuário. Não com muitas coisas, mas com algumas preciosidades.
Tenho várias centenas de página de suplementos de jornais americanos a cores do princípio do século XX, até aos anos 50. Folheá-las e sempre um prazer. É fazer parar o tempo.
O seu trabalho sobre o Príncipe Valente (Prince Valiant), de Hal Foster, é, provavelmente, o mais completo que existe no mundo. Como explica o facto de os próprios americanos terem, de certo modo, deixado cair aquele monumento da BD?
O meu livro Foster e Val é mesmo o mais completo que existe. E não o digo por vaidade, mas sim com pena de que ninguém com mais meios do que eu tivesse feito um livro com as mesmas ambições. É que na América seria mais fácil. Mas é uma coisa normal: na cultura popular, os americanos descobrem sempre as suas pérolas mais tarde do que o resto do mundo. Mesmo a mais recente edição da Fantagraphics recorreu a material com o qual seria facilmente possível fazer dela a edição «definitiva» a cores, mas está muito longe disso.
Alem de estudar as séries, também as restaura. Fê-lo com Prince Valiant e com Lance, de Warren Tuftts (publicado em 1957-58 no Cavaleiro Andante como Flecha). Quer explicar aos leitores como trabalha?
De forma muito simples: digitalizam-se as páginas dos jornais e, se for para manter a cor (como no caso de Lance e de Krazy Kat), corrigem-se os danos causados pelo tempo na cor e no papel, as falhas de registo e as irregularidades dos tons devidas a má impressão. Se, como no caso do Príncipe Valente, pretendo fazer uma edição a preto-e-branco, tenho de apagar as cores e de recuperar os negros mal impressos. Apagar as cores e fácil se forem claras, mas é uma trabalheira
se forem fortes.
Com o passar do tempo, os comic books, as revistas que abordam as aventuras sobretudo dos super-heróis, suplantaram em importância a daily strip, a tira diária, dos jornais. Porquê?
Talvez por uma revista, com as suas dezenas de páginas, oferecer mais entretenimento ao leitor.
Nas décadas de 1930 e 1940 as tiras diárias faziam aumentar a tiragem dos jornais americanos. Como explica que estes tenham desinvestido na matéria?
Entretanto, apareceu a televisão. E quem bate a televisão na capacidade de oferecer entretenimento
em grandes doses?
Actualmente, as tiras da imprensa são exclusivamente humorísticas, na Iinha dos Peanuts, como Calvin and Hobbes ou Zitts. Por que acabaram as séries realistas?
Isso é, realmente, algo de incompreensível. Se fosse devido à televisão, ficaria por explicar que tal efeito não se tivesse verificado décadas antes...
Qual é o seu autor preferido, e porquê?
O Harold Foster, claro, pelas razões que me levaram a escrever um livro inteiro sobre ele.
Roy Crane, o autor de Wash Tubbs e Buz Sawyer, não Ihe diz nada? Parece-me um gigante esquecido e injustiçado, a merecer reedição completa, talvez sua…
É um gigante, sem dúvida, mas não injustiçado, até porque o Wash Tubbs já foi todo reeditado e vai novamente sê-lo pela Fantagraphics. Ao Buz Sawyer é que, de facto, não se dá a devida importância. E, no entanto, as histórias são excelentes e o desenho originalíssimo.
Como explica a perda de influência da BD junto das crianças e dos jovens? Nem existe hoje em Portugal uma publicação especializada...
Existem outros entretenimentos, e cada vez mais. Será dramático, mas é também a ordem natural das coisas.
Ver a página do Manuel Caldas AQUI!!!
FALAREMOS DE MAIS LIVROS ANTES DO NATALINHO!!!
dezembro 12, 2009
TERTÚLIA BD DE LISBOA – ANO XXI - ENCONTRO 304º (VADIO, DE NATAL)
Pois é, decorreu mais uma Tertúlia de Natal, no dia 8, no Restaurante A Cisterna – na Rua de São Sebastião da Pedreira, que deve o seu nome a uma pequena cisterna – diria antes um poçozeco do século XVI, talvez... Escolha não muito feliz de Geraldes Lino, em que o pessoal tertuliano teve que se repartir por três salas – duas para os tertulianos/jantantes e uma para o organizador organizar as prendas natalícias a sortear – e engolir um jantar inenarrável: convido-os a ver as fotos dos pratos servidos. Bacalhau “qualquer coisa espiritual” que mais parecia umas migas de camarão congelado, que outra coisa, – porque do dito bacalhau nem o sabor tinha – e com umas farripas de cenoura à mistura. E um arroz de pato meio esturricado, onde os pedaços do desgraçado do bicho quase pareciam lascas de madeira, com duas ou três rodelinhas de chouriço enegrecidas. Claro que nada disto sabia propriamente mal e até… se comeu. Mas como não sou um apreciador de “comeres disfarçados”, ou “francesices amaneiradas”, como chamo a estes pratos: preferindo ver o bicho que se come, ou mesmo só uns bons pedaços dele, o defeito pode até ser meu. Tudo isto me fez sentir alguma saudade do Jardim do Leitão do ano passado, ou do Rodízio Grill de há dois anos… Desculpa lá, Geraldes Lino, mas sabes como é preciso caprichar nestas coisas, sobretudo nas ementas. Bem sei que estamos “numa Tertúlia e não num Jantar”, mas os Encontros de Aniversário e de Natal, têm que ser mesmo especiais em matéria de ementas e desafogados em matéria de espaços, já que não há grande programa teruliano nestes Encontros, mais comemorativos que outra coisa.
E ainda por cima não se podia fumar senão no terraço dos fundos!!! Mas isso, com o regresso do policiamento de costumes, vindo, curiosamente não dos tempos do Salazar – embora os faça lembrar a muita gente que os conheceu – mas de uma cruzada nascida nos EUA (onde as pessoas não devem “ser obrigadas” a respirar o fumo dos que fumam no interior dos edifícios, mas que depois podem vir para a rua respirar o CO2 do ar mais poluído do mundo) e a posteriori importada por meia dúzia de moralistas europeus… e por aí fora, já nem tem muito que se lhe diga. Mas de vez em quando tenho mesmo que reavivar esta lutazinha, não é?
Enfim, adiante!
Como nestes Encontros Vadios (Aniversário e Natal) não há convidado especial, a Tertúlia é preenchida pela distribuição do Programa, Folhas Volantes e TertúliaBDzine, havendo depois o habitual sorteio de prendas que cada um oferece, organizadas de modo a que saia uma a cada tertuliano presente. Assim, Geraldes Lino distribuiu as Folhas Volantes nºs. 241 e 242 e o TBDzine duplo nº 144-145 (duplo porque teve 8 páginas), com a BD “O Temporal”, de Carlos Páscoa. E quando o Lino publicar o Comic Jam feito neste Encontro (penso que só entraram autoras) e é, se não me engano o # 6 da 2ª Série… se não me esquecer, coloco-o aqui.
De referir que nas fotos só assinalei quem é o Carlos Páscoa, por ser o autor desta banda desenhada.
Desta vez não houve videozeco porque as pilhas da minha máquina estavam no fim e recusaram o uso do modo vídeo. Já agora, o flash também não correspondeu como de costume, como se nota nas fotos.







E pronto. A imagem seguinte não é a do livro que me calhou no sorteio, mas sim ao Álvaro. Como ele estava mais interessado no que me saiu a mim, trocámos. Portanto foi esta a minha prenda do Natal Tertuliano de 2009.

dezembro 07, 2009
XX FIBDA/AMADORABD 2009 – 7 – AS MELHORES EXPOSIÇÕES (2)
Em conjunto com “REI” (no post anterior) destaco a exposição de Emmanuel Lepage, sobre “MUCHACHO, tomo 2” Prémio Nacional de Banda Desenhada 2008, para o Melhor Ábum Estrangeiro. Depois, “KOMIKS – a banda desenhada polaca”, a grande surpresa, pela positiva, deste FIBDA. Depois destacaria a exposição “SONNO ELEFENTE – AS PAREDES TÊM OUVIDOS”, do álbum de Giorgio Fratini - sobre o edifício da António Maria Cardoso, que foi a sede da PIDE. Mas, para ser sincero, esta exposição deixou-me algumas dúvidas estruturais. Porque apesar da excelência do material exposto e da cenografia que o envolveu, pareceu-me despropositado que a cenografia se tenha sobreposto ao material exposto. Repare-se que as pranchas estavam expostas quase exclusivamente numa única parede, sendo as outras três ocupadas pela cenografia, com uma ou outra prancha pelo meio… mas, mesmo assim, não posso deixar de a considerar uma das melhores exposições do FIBDA deste ano.
Aqui ficam as fotos das exposições atrás referidas. Devo dizer que ainda faltam dois ou três posts sobre o AmadoraBD 2009. Isto para responder a perguntas que me têm sido feitas, não só de leitores portugueses do Kuentro, mas sobretudo a questões de leitores do Brasil e um outro, muito persistente e interessado no Festival da Amadora, da Catalunha.


SONNO ELEFENTE – AS PAREDES TÊM OUVIDOS:

dezembro 05, 2009
BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #97 – PEDRO CLETO NO J.N. E CRISTÓVÃO GOMES, QUATRO RECORTES DO JORNAL “i”.
Chama-se a isto pôr a escrita mais ou menos em dia: recortes atrasados que, por via dos posts sobre o FIBDA (de que ainda faltam algumas coisas) têm ficado no arquivo. Assim, fiquem então com o recorte do Jornal de Notícias de 24 de Nov, onde Pedro Cleto escreve sobre as vendas de originais de BD e os quatro recortes mais atrasados do Cristóvão Gomes no jornal “i”, sobre Alan Moore, Ozamu Tezuka, Raphael Bordalo Pinheiro e Stuart de Carvalhais (com fotos da responsabilidade do Kuentro).

ORIGINAIS DE BD RENDEM MILHÕES
Jornal de Notícias 2009-11-24
F.Cleto e Pina
O mercado dos originais de banda desenhada, considerado por especialistas como um bom investimento, continua em alta.
Um leilão realizado no passado fim-de-semana em Paris rendeu quase dois milhões de euros.
Entre os diversos lotes vendidos pela ArtCurial, salienta-se a aguarela feita por Hugo Pratt para a capa do álbum "Corto Maltese na Sibéria, de 1979, que foi arrematada por 247 mil euros, apesar de a estimativa inicial apontar apenas para 120 mil. O desenho da capa de "A casa Dourada de Samarcanda", do mesmo autor, rendeu 99 mil euros.
Entre obras de Bilal, Moebius, Walthery ou Manara, em destaque esteve também um belo original a preto e branco de Franquin, base da ilustração usada na capa do álbum "Le cas Lagaffe", que foi vendido por 150 mil euros (embora abaixo dos 200mil previstos), e para um desenho de Tintin, feito por Hergé em 1944, que chegou aos 24 700 euros.
Apesar destes valores, dos 1100 lotes disponíveis foram muitos os que ficaram por vender, sinal de que a crise também já chegou ao comércio dos originais de banda desenhada.
Entretanto, dos Estados Unidos, chega a notícia de que uma pintura de Frank Frazetta, um dos mais conceituados e apreciados ilustradores do género fantástico, foi comprada por um coleccionador anónimo por um milhão de dólares (cerca de 672 500 euros). Trata-se da imagem que serviu de capa ao romance "Conan de Conqueror", de Robert E. Howard, publicado pela Lancer. Os raros originais de Frazetta que surgem à venda - nunca por iniciativa do autor - são avidamente disputados, atingindo valores elevados, como aconteceu com a capa de "Escape on Venus", de Edgar Rice Burroghs, que em 2008 rendeu 251 mil dólares, máximo agora ultrapassado.
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JORNAL “I” DE 30/10/2009.
ESPECIALISTA BD
Cristóvão Gomes
ALAN MOORE: V DE ESCRITOR
NA BD se o desenho evoluiu ao sabor dos tempos e das possibilidades técnicas que cada tempo trouxe, já a narrativa cresceu de acordo com as condições da sua apresentação. No início era feita para e como os jornais; ocupava um espaço curto e bastava-se com o efémero. Só depois sentiu uma necessidade narrativa que ultrapassava aquele espaço.
Aparece assim a noção de continuação, depois as revistas próprias, os álbuns e, finalmente, os romances gráficos. Mas o aumento do espaço exigia uma maior densidade narrativa.
Ora, por ser um meio de comunicação tão versátil, a BD roubou elementos as outras artes para aumentar a sua complexidade. E chegamos a Alan Moore (1953), talvez o primeiro escritor de BD que é isso mesmo antes de ser outra coisa. No final dos anos 1970, os comics americanos passavam por uma crise de crescimento. Os seus leitores afastavam-se, envelhecidos, e os mais novos não liam. Surgiu então a ideia de recuperar os antigos leitores promovendo o crescimento dos seus personagens. E que melhor maneira de mostrar que alguém cresceu que retratar as angústias e os medos que denunciam a sua fragilidade? Moore fê-lo, primeiro com os super-heróis canónicos ultrapassando as limitações de escrever sobre a perfeição, depois em histórias próprias como "V for Vendetta", "Watchmen" ou "From Hell".
A BD ganhava assim uma profundidade psicológica que lhe estava vedada. A sua obra posterior e a demonstração de um domínio magistral da linguagem da BD. E de tudo o que com ela pode dizer-se.

JORNAL “I” DE 06/11/2009.
ESPECIALISTA BD
Cristóvão Gomes
OSAMU TEZUKA: OLHOS REDONDOS
A MANGA moderna apareceu com a ocupação norte-americana do Japão. A guerra tem estas coisas, de fazer mexer as referências culturais, e levou para o Japão as revistas que os soldados se entretinham a ler. Osamu Tezuka, nascido a 3 de Novembro de 1928, já era por essa altura um apaixonado por tudo o que vinha dos EUA.
Licenciado em Medicina, interrogava-se sobre se devia investir no seu amor pelo desenho ou seguir o rumo que o curso ditava. Foi a mãe que acabou com as dúvidas: faz o que te fizer mais feliz. A felicidade passou por cruzar as referências culturais japonesas com as novidades que a ocupação trazia. "A Nova Ilha do Tesouro", de 1946, trazia já a sua marca: os olhos enormes, herdados dos personagens da Disney, e a capacidade quase cinematográfica de manipular o tempo
E o espaço. A manga, que é hoje um fenómeno representa um mercado de 406 mil milhões de ienes, começou aí. Mas não reduzamos Tezuka aos cifrões que gerou. Aliás, quando em 1968
Stanley Kubrik o convidou para director artístico de "2001: Odisseia no Espaço", foi por não poder abandonar o seu estúdio que recusou.
Tezuka criou um mundo, a publicação das suas obras completas estende-se por 80 mil páginas, e, pasme-se, não está completa; faltam pelo menos outras tantas. Parte do seu sucesso deve-se a ter sempre seguido as regras que permitem manter uma coerência que é não só estética mas também ética, através de uma ligação à mitologia ancestral japonesa. E tudo começou com um rato.

JORNAL “I” DE 13/11/2009.
ESPECIALISTA BD
Cristovão Gomes
RAPHAEL BORDALLO PINHEIRO: ADEUS TRISTEZA
Há uma relação antiga entre Portugal e a BD, ao ponto de haver quem pretenda que foi aqui que a BD se fez primeiro. Foi com as Invasões Francesas e consequente domínio Inglês que a ilustração como arte foi descoberta pelos portugueses.
Essa nova dimensão do desenho foi aproveitada para regenerar a tradição antiga da critica de costumes, sobretudo de uma forma risível. A transformação desta ideia numa narrativa desenhada aconteceu com Raphael Bordalo Pinheiro. Nascido em 1846, segundo filho de um pintor diplomado e parceiro de Herculano em revistas ilustradas, Raphael errou pela vida a procura do que a sua vida seria. Só quando o pai lhe arranjou ocupação na câmara dos pares é que a luz se fez. O ambiente mesquinho refinou-lhe o humor. Em 1870 começou a mostrar esse talento cómico na imprensa. Decompunha a realidade numa ácida mistura entre o absurdo e a crítica social. Assim chegamos a "Apontamentos sobre a Picaresca Viagem do Imperador de
Rasilb Pela Europa", o primeiro álbum de BD português. Lá se conta uma imaginária passagem de D. Pedro II do Brasil por Portugal numa narrativa continuada onde se subvertem as regras conhecidas da ilustração: Raphael inventa novos sinais gráficos, desrespeita as dimensões das vinhetas e encurta ou alarga o tempo da história consoante a conveniência do narrador. Teve uma vida cheia, que em muito ultrapassou a BD. Porém, foi sempre fiel ao lema que enunciou em "A Paródia", a sua última publicação: "A caricatura ao serviço da tristeza pública".

JORNAL “I” DE 20/11/2009.
ESPECIALISTA BD
Cristovão Gomes
STUART DE CARVALHAIS: QUIM, MANECAS E O FUTURISMO
A 21 de Janeiro de 1915, enquanto o mundo se preocupava com o curso da Grande Guerra, publicava-se no suplemento "O Século Cómico" a primeira aventura de Quim e Manecas. A série, criada par Stuart de Carvalhais (1887-1961), havia de durar até 1953 e aproximar a BD dos portugueses. Fundava-se numa ideia recorrente na BD de então: uma dupla de rapazes e as consequências das suas acções imprevistas. Era já essa a ideia por trás de Max und Morritz, do alemão Wilhelm Busch, figura fundadora da BD. Mas também dos Katzenjammer Kids de Rudolph Dirks (curiosamente, outro alemão), que desde 1897 era publicada nos EUA. Ora se somarmos isto às semelhanças entre Manecas e o Yellow Kid, de Outcault, percebemos que a incursão de Stuart na BD não foi feita sem um conhecimento profundo do meio e das suas possibilidades. Na altura a BD em Portugal era a mera evolução da ilustração cómica, muito agarrada à crítica social e de costumes. Stuart não deixou de expressar o seu ideário político, mas nunca se bastou com isso. As suas histórias exploravam verdadeiros delírios 1ógicos, situações absurdas, ou caminhavam lentamente para um gag imprevisível. E eram sempre suportadas pelo seu traço versátil, que dominava magistralmente o preto e o branco. Isso e a opção por cenários minimais, que facilitavam a compreensão das tiras. Nisso Stuart antecipou a linha clara de Hergé. O enorme sucesso das suas personagens mostrou que havia quem procurasse a BD em Portugal. E que havia quem a fizesse.

dezembro 03, 2009
XX FIBDA/AMADORABD 2009 – 6 – “REI” UMA DAS MELHORES EXPOSIÇÕES DESTE ANO E… FILIPE SEEMS EM CAIXA ESPECIAL.
Com REI (editado em Outubro de 2007 pela ASA), novela gráfica – 328 páginas – com texto de Rui Zink e desenho de António Jorge Gonçalves, este último ganhou no FIBDA 2008 o Prémio Nacional de Banda Desenhada para o Melhor Desenho de Álbum Português, tendo por isso direito a exposição alargada este ano. A exposição sobre REI foi mesmo das melhor conseguidas neste 20º Festival – aqui ficam as fotos.


Mas, já agora, as Edições ASA colocaram à venda a 3 de Novembro – apresentação na FNAC Chiado –, uma caixa especial com os três volumes da série “As Aventuras de Filipe Seems”, (Ana, A História do Tesouro Perdido e A tribo dos Sonhos Cruzados) também da dupla Rui Zink – António Jorge Gonçalves, em edição de capa dura. Esta edição inclui um DVD do espectáculo Conspiração, um desenho inédito de tiragem exclusiva, de António Jorge Gonçalves, e um texto inédito de Nuno Artur Silva.
O suplemento Ípsilon, do jornal Público, na edição de sexta-feira, 13 de Novembro passado, incluiu matéria sobre Filipe Seems, em conversa (e texto) de Anabela Mota Ribeiro com os autores. Aqui fica também este recorte.


Ípsilon – Sexta-feira 13 Novembro 2009
Anabela Mota Ribeiro
FILIPE SEEMS – UM RAPAZ DE LISBOA
Filipe Seems: herói de uma Lisboa imaginária, literato, detective dado ao anagrama e à caça ao tesouro. Tanto pode nadar com golfinhos no Tejo como perder-se no labirinto de jardins que se bifurcam de Borges. Uma irrealidade. Bastante real nos álbuns de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, na peça "Conspiração" e no DVD que regista a peça. Tudo numa caixa acabada de ser lançada.
Os álbuns "Ana" (1993), "A História do Tesouro Perdido" (1994) e "A Tribo dos Sonhos Cruzados" (2003), escritos por Nuno Artur Silva e desenhados por António Jorge Gonçalves, fornecem um retrato de um herói enquanto jovem. Filipe Seems.
São a biografia de uma pessoa, que só por acaso não é de carne e osso; e de uma cidade, Lisboa, imaginada por ele.
A BD começou por ser publicada no semanário "Sete". Depois em álbum. Depois fez-se a adaptação para teatro, na peça "Conspiração". Primeiro protagonizada por Nuno Lopes, depois por Marco de Almeida. Os restantes cúmplices eram Sandra Celas e Kalaf, música de Armando Teixeira, coreografia de Amélia Bentes. A peça deriva do terceiro tomo, "A Tribo... ", uma novela gráfica, mais do que um álbum BD. Aversão vídeo, realizada por Pedro Macedo, está agora a ser lançada numa caixa que reúne todos os álbuns, o DVD e desenhos originais.
Muitos anos depois, fecha-se um ciclo. Formalmente fecha-se um ciclo. António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva já não são os mesmos. E Seems?
Por onde se começa? A compor uma ficção, a desvendar um mistério, a amar uma cidade. Talvez pela luz dourada sobre o rio, que é um mar. Pela vista esplêndida. Por uma cena assim: sapatos de detective pousados sobre a secretária, uma mulher óbvia e ondulante que entra pela porta, uma citação de Picasso. "D'abord on trouve, puis on cherche". Primeiro encontra- se, depois procura-se. Este será o "modus operandi" deste detective.
Escolher o enigma e não a solução. Seems, Filipe Seems. Parece que.
Pistas, não provas
Oambiente de Seems: não há vestígios da soturnidade do "film noir" ou do romance "à la" Chandler. Mas melancolia, sim. Não há citações de Cesário, mas de Pessoa. (Há uma prancha em que se lê, no café, o "Livro do Desassossego"). Não há mortos.
E é verdade que a primeira vez que alguém diz: "mãos ao ar", o que se aponta é uma máquina fotográfica - arma dos tempos modernos, objecto conhecido e identificado.
Viramos a página. Subitamente, canais junto ao elevador de Santa Justa, gôndolas venezianas, escadas, escadas. Uma Lisboa impossível. Um objecto de desejo.
Começamos, de novo: o problema essencial é o problema de Seems. Que caminho seguir. Que escolha fazer. Qual é o fio da nossa história. Perante a bifurcação permanente, que narração escolhemos, de que narração fazemos parte. Tudo perguntas, tudo questões, deixadas em aberto. Não interessa a resposta, interessa o caminho para lá chegar.
O princípio mesmo. Lisboa, 1992. Dois amigos. Nuno Artur Silva, AntónioJorge Gonçalves. "Lisboa era uma cenografia pronta a receber histórias.
Uma cidade com um potencial extraordinário. E havia histórias por contar e imagens para desenhar", diz o argumentista.
Percorreram a cidade uma e outra vez. Fizeram "repérage", como quando se prepara um filme. Mas a pensar em álbuns de BD. Escolheram "décors", escolheram o ângulo, escolheram o absurdo que lhes apetecia. Por exemplo: "Acho que vou dar um mergulho", e a seguir estão golfinhos a nadar no Tejo. Ou o Terreiro do Paço, completamente inundado, como se fosse S. Marcos em dias de maré alta.
Tudo isto sem gastar dinheiro ou pedir autorizações. Ao contrário dos filmes. Coisas que a literatura permite. E também há, por falar em Lisboa absurda, a imagem poética da cidade coberta de neve. Neve espessa, de um branco opaco.
O cenário era este. Depois, era preciso um herói que ligasse os pontos, que lhes desse um sentido, que contasse uma história. Que a contasse à medida que a descobre. Descobrir, procurar - nesta ordem. Podia ser um poeta, mas é um detective. Faz o que fazem os detectives: segue as pistas. Outra citação, René Char: "Um poeta deve deixar pistas e não provas; Só as pistas fazem sonhar".
Múltiplos sentidos
Filipe Seems. "Em termos práticos, nasci em 1993, ano em que me inventaram. Mas as minhas histórias passam-se num futuro mítico. Será 2016, 2020? Se quiser, eu não tenho tempo, eu não tenho idade. Sou uma ficção, uma utopia. O que está por trás de mim é a ideia de que todos somos obras de ficção. Vivo numa cidade mas esta cidade não é só a cidade real. Aliás, esta cidade é sobretudo a cidade irreal. É a cidade que eu posso transformar. É a cidade
em que, na esquina, posso ter aquele jacarandá e imaginar tudo o que quiser: gôndolas venezianas, naves espaciais. Esta cidade tem pessoas. Cada pessoa é uma obra de arte, uma obra de ficção. O meu cruzamento com essas pessoas tem que ser um cruzamento que provoque, que estimule, que inspire. Eu tenho que ter uma existência literária. Eu quero ter uma existência literária. Porque essa é a forma de viver inspiradamente".
O excerto é retirado de uma entrevista de 2003, a única entrevista dada por Seems. Ou seja, por Nuno Artur e António Jorge a responderem na pele de Filipe Seems.
Da mesma entrevista.
"Qual é o seu passado? Que infância foi a sua?
- Que quer que lhe diga? Em miúdo, vivi num bairro típico de Lisboa, fui o miúdo do Molero ['O que diz Molero', Dinis Machado]. Joguei à bola no meio dos outros miúdos. Depois fartei-me de viajar sem nunca sair do bairro. Depois isolei-me. Fartei-me de ler, de ver filmes. Continuei a viver no mesmo sítio, mas virado para dentro da minha cabeça. Foi esse o lugar onde sobrevivi.
Tem mãe? Foi embalado?
- Não. Ou se tive, também foi uma ficção. Não esqueça que eu não tenho o problema de pagar a renda, não penso em dinheiro. Sou apenas uma personagem perdida num labirinto de possibilidades, condenada a errar eternamente nesse labirinto". Coisas, factos, imagens do labirinto: um passageiro numa noite de Verão, um gato elegante que vai à frente.
Passeia no telhado, sem que isso pareça um número equilibrista. Funambulismo não é uma palavra usada. Mas serendipidade sim. (Serendipidade: faculdade de fazer descobertas felizes e inesperadas, por acidente). Palavra essencial na música do acaso de Seems.
Há números de circo (e moda) na Basílica da Estrela. Uma evocação de Pessoa ao volante de um Chevrolet, numa estada de Sintra. Há pessoas que comunicam pelo computador antes de o skype ser uma ferramenta de todos os dias. Há sessões de psicanálise, amigos cientistas, uma guia que acha que o ideal é deixar que os seus turistas se percam. Prestidigitadores, visões caleidoscópicas.
Um azul árabe. Esquinas, jogo de sombras, edifícios oblíquos. Gaivotas esparsas. Roupa dependurada na janela.
Temperatura solar. E Jorge Luís Borges, omnipresente.
Mais factos: "Convidei-a para um pequeno-almoço, a luz da manhã invadia os telhados". Era n' A Brasileira, e A Brasileira era mesmo A Brasileira. O mesmo recorte. Não havia coisas estrambólicas - ao tempo - e que depois não seriam tão estrambólicas assim. Como o comboio a passar debaixo da ponte 25 de Abril. (De certa maneira, Seems apresenta também uma Lisboa premonitória).
Há bicicletas que andam no ar, com um balão. Um funicular liga a Baixa e o castelo de S.Jorge. Um eléctrico igual ao 28 que percorre as colinas de Lisboa e onde fanam carteiras aos turistas.
Detenhamo-nos no eléctrico. No primeiro álbum, "Ana", é um funicular. No segundo, "A História do Tesouro Perdido", há um bar que funciona num eléctrico chamado Desejo. (Sem Blanche Dubois à vista). No terceiro, "A Tribo dos Sonhos Cruzados", o eléctrico é o mesmo, mas eles não. Oeléctrico aporta numa estação soturna, com estalactites e estalagmites (Cesário nunca vem ao caso). E por isso, o espaço que atravessa é subterrâneo, "dark", perdido do seu sentido.
O fio principal: "O primeiro álbum tem a ver com o universo das histórias. É dominado pela errância do personagem e pela frase de Picasso.
A partir daqui, quis fazer arte pop. Colagem, mistura, cruzamento, sobreposição. Tudo o que a BD permite, de modo simples e imediato. Misturar o universo borgesiano com Philip K. Dick. Cruzar um passado mítico e visões futuristas. A Costa da Caparica que aparece é a do [modernista] Cassiano Branco (de um projecto que nunca se chegou a concretizar). Tudo
num só tempo".
Tudo cheio de múltiplos sentidos, múltiplos fios. Um exemplo: Maria Kodama, dona de uma clínica de clonagem em "Ana", é o nome da mulher deJorge Luís Borges. Alice Lidell, que dá nome à clínica, é o nome verdadeiro da Alice do país das maravilhas.
Nada elementar, meu caro Seems.
Voltamos a Nuno Artur Silva e ao coração destas fábulas: "O António Jorge queria desenhar luz, luz, luz. Eu gosto de histórias de tesouros. Qual é o sítio mais improvável para enterrar um tesouro e encontrar um marinheiro? No meio do deserto".
N' ''A História do Tesouro Perdido" mistura-se Casablanca e a "Ilha do Tesouro" de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, AI Berto aparece, "himself", como director de um museu, há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/ atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de "Blade Runner", e Harrison Ford cara a cara com Filipe Seems.
E o tesouro? "Mais importante é estar na pista do que encontrar no tesouro", diz Nuno Artur.
Sempre a mesma ideia base. Dez anos mais tarde, no terceiro tomo da trilogia, em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no "underground", nos subterrâneos dele próprio – Seems - e de Lisboa. Sombras e nevoeiro. Escuro cá dentro. Talvez seja sempre noite. Seems sem conseguir ver o dia.
Cidade em escombros. Corredores e corredores de metro. A única imagem solar é a dosJerónimos transformados em praia tropical. Bizarro. E há um fio condutor, roubado a Chatwin, que por sua vez o roubou aos aborígenes do deserto australiano. Os tais que se guiam por canções e não por mapas. (Roubar é um modo de dizer.) Quando se muda o sentido, o caminho, o fio? Quando acaba a canção. Filipe Seems deve, então, seguir a sua "songline". Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma "overdose" de imagens e sons. É preciso chegar ao silêncio. Soterrado, soterrado. Filipe Seems precisa de abrir uma fenda no muro.
António Jorge Gonçalves: "O segundo livro aparece colado ao primeiro porque sentimos que 'Ana' sofria de erros de principiantes e da planificação
página a página para um jornal. O 'Tesouro' foi uma espécie de ajuste de contas. Durante os anos que se seguiram ao 'Tesouro', pensei que o Filipe Seems tinha morrido – achava mesmo que não voltaríamos a trabalhar naquilo (apesar de sempre existir a ideia de uma terceira história).
A 'Tribo' nasce de um reatar. N’ ‘A Tribo', somos outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido". Graficamente, é outro objecto. "Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença por incapacidade de voltar a uma linguagem de 'juventude'; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que..."
E que coisas querem dizer? "Nos dois primeiros queríamos apenas jogar; no terceiro precisámos dizer. O meio da banda desenhada (essa pequena aldeia de irredutíveis) não aceitou muito bem essa diferença e acho que decepcionámos alguns Ias. Mas para mim é límpida a supremacia do autor sobre o leitor numa obra (quer dizer: o autor fá-lo por necessidade, não escolhe. O leitor tem a liberdade de decidir se quer ou se não quer)".
Onde começou a alucinação?
"A mulher que comigo agora se cruza é o meu grande amor e ambos ainda não o sabemos. O homem que saiu do táxi tem uma missão: vai salvar doze pessoas e ainda não sabe. O outro, que entrou no táxi, é um assassino, vai atrás da sua vitima, e sabe-o". Linhas, fios, histórias, e medos. Viver, literariamente, que é como vivemos, talvez se trate de encontro e desencontro. O problema talvez seja desencontrarmo-nos dos nossos passos, ou seja, da nossa ficção. Mas há sempre outra ficção...
Filipe Seems diz: "Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo".
"Faites vos jeux", os fios estão lançados.
