abril 12, 2007

«UMA MAQUINA DE HISTORIAS» E DE SONHOS 4 - por José Ruy

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Porque razão esta máquina emblemática, símbolo do bom jornalismo infanto-juvenil português, que nasceu na Amadora e esteve na criação do grande Festival Internacional de Banda Desenhada desta Cidade que se mantém há 18 anos, foi ostracisada, e envolvida em nebuloso mistério.

São de minha autoria as duas únicas fotografias da Rolland de «O Mosquito», na década de 1950. A imagem lateral que aparece no «Almanaque de O Mosquito e da Formiga de 1945» foi extraída do catálogo de fábrica. E que pena tenho hoje de não lhe ter tirado mais fotos.

Nos finais do Século XX e depois de muitas pesquisas deram-me nota de que a Máquina de Histórias, tendo deixado de ter utilidade prática na sua função de imprimir pontos de exame, devido ao avanço tecnológico, mas em consideração ao seu valor histórico, teria sido transferida para Coimbra, para um Museu.

Tive uma grande alegria. Era um destino nobre e justo para uma máquina de offset que tantas histórias havia imprimido, que tantos sonhos conseguira forjar em várias gerações de leitores. Quantos de nós não desenvolvemos a leitura com as publicações por ela impressas. Era agora a vez da velha Rolland sonhar, em exposição no Museu, para quantos a quisessem admirar.

Ansiosamente, partilhei com amigos e admiradores dessa importante peça, do sonho de a podermos observar e fotografar mais uma vez, registando assim a sua imagem para os nossos arquivos e para o do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem instalado na Amadora, onde se guardam as melhores relíquias de «O Mosquito».
Após aturada pesquisa, soube-se que a Rolland estava instalada no «Museu da Ciência e da Técnica» na Rua dos Coutinhos Nº23, em Coimbra.

Contactado o Museu, deram-nos conhecimento de que a referida máquina encontrava-se «ainda» num armazém (Armazém da Carqueja) e que não estava patente ao público.
Depois de porfiados e difíceis contactos, pois nem sempre se encontrava a pessoa certa, ou não tínhamos resposta às mensagens deixadas, combinou-se uma ida a Coimbra, ao Armazém. Do Museu disseram não saberem bem de que máquina falávamos, pois tinham recebido muitas outras peças de várias proveniências. Por isso a minha presença era indispensável para a localizar, o que me será fácil, mesmo estando ela no meio de muitas outras máquinas. No entanto, estava interdita a hipótese de a fotografarmos. Com surpresa, aceitou-se a imposição. Pelo menos íamos vê-la.
Na véspera de partirmos, o Museu cancelou essa visita, por indisponibilidade da pessoa que nos iria acompanhar, pois sem ela não nos era possível entrar no Armazém da Carqueja.

Muitas tentativas se seguiram, cada vez com mais dificuldade de comunicação, vindo de Coimbra sempre a justificação habitual de indisponibilidade.
Foi então que tomei consciência de que algo de grave, de muito grave estava a acontecer com a Máquina de Histórias e de Sonhos. Afinal não se encontrava num Museu, nem num Armazém à espera de espaço para poder ser exposta. A imposição para que não fosse fotografada e o impedimento constante para a vermos, levou-me a considerar, aterrado, se após ter estado a trabalhar em boas condições na oficina do Ministério da Educação no Algueirão Mem Martins, a máquina que fora enviada para o Museu da Ciência e da Técnica, não teria sido desviada do seu destino e ido parar a um local menos digno.

Propus-me dar voz à Máquina de Histórias, e a esta voz junta-se o clamor de um numeroso grupo de admiradores de «O Mosquito», ligados a muitas áreas da cultura nacional, como jornalistas, arquitectos, actores, professores, médicos, escritores, desenhadores, escultores, pintores e advogados.
E é pela opinião dos advogados, que se levantou uma questão bastante pertinente:
Será lícita a presença da máquina (ou o que resta dela) no armazém do Museu da Ciência e da Técnica em Coimbra e nas condições misteriosas que a envolvem?

Se deixassem essa Rolland expressar-se livremente, que histórias, para além das que imprimiu, narraria? Que queixas nos faria de maus-tratos? Que acusações e a quem as dirigiria?

Debrucemo-nos então na questão levantada pelos advogados: se haverá legitimidade do Museu de Coimbra em estar de posse da Rolland offset do jornal infanto-juvenil «O Mosquito».

(continua)

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NA PRÓXIMA SEMANA O 5º E ÚLTIMO "POST" DESTA INTERVENÇÃO DE JOSÉ RUY NO KUENTRO.

Publicado por jmachado em abril 12, 2007 03:21 AM | TrackBack
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