novembro 06, 2008

RECORTES 4 - REPORTAGEM DO PÚBLICO NO FIBDA 2008

A reportagem do jornal Público no FIBDA 2008, no domingo, dia 4 de Novembro, pela jornalista Inês Subtil.

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Reportagem no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora
2008: Odisseia na Amadora

04.11.2008 - 12h41 Inês Subtil

Emília Branco decidiu passar o seu dia de folga no local onde trabalha todos os dias. No ar sente-se o cheiro a pipocas acabadas de fazer. E a empregada de limpeza, de 68 anos, com um ar de quem vai contar um segredo, confessa que passa os dias a apanhar as que caiem no chão. “Segunda-feira venho fazer o mesmo”, acrescenta. Mas hoje é diferente. Durante o fim-de-semana, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBD) enche-se de pessoas, na sua maioria pais e crianças, que aproveitam o tempo livre para entrar no mundo dos quadradinhos, este ano, transformado numa enorme nave espacial.

Mesmo para quem sabe que a ficção científica pertence ao mundo dos livros, ao entrar no mundo da 19ª edição do festival é difícil não se sentir aquele arrepio de quem vai embarcar numa viagem de outra dimensão.

Depois de passar a porta do Fórum Luís de Camões, onde está montada a exposição central do FIBD, a primeira sensação é a de que se está perdido. Os olhos tentam habituar-se ao facto de não haver luz natural e ao espaço, que só reconhecemos dos filmes. É tudo tão diferente que é difícil escolher o caminho. O melhor é seguir o barulho das pessoas.

A viagem começa no Astroporto

Além dos seres estranhos com muitos olhos e braços que habitam as paredes e os tectos de algumas das salas, vêem-se muitas famílias, o que nos deixa mais descansados.

Nesta viagem espacial, percorrem-se dois pisos. Estamos no nível zero, no Astroporto. Aqui, cheira a papel, a livros novos. O espaço está dividido em cinco núcleos: personagens, argumentistas, desenhadores, publicações e os concursos do festival. É neste piso que estão também os “quadradinhos” dos autores portugueses. Começamos a sentir-nos mais confortáveis e é quando ouvimos uma voz, vinda não se sabe de onde, a dizer que as conferências vão começar no piso inferior. É então que decidimos fazer batotice. Já voltaremos ao Astroporto, agora é tempo de descer até à nave cósmica.

Ao entrar neste nível, vamos quase até ao fundo onde se ouvem as vozes dos mais novos e cheira a pipocas. É aqui que está a grande animação ao início da tarde. No espaço infantil, dão-se os primeiros rabiscos. As crianças fazem fila para pintar a cara com desenhos fantásticos e numa mesa são elas os artistas que pintam folhas em branco. Foi aqui que encontrámos Emília e duas amigas. São os únicos adultos sentados a desenhar. É inevitável perguntar-lhe por que veio passar a tarde num sítio onde passa grande parte dos dias a trabalhar. Mulher de poucas palavras, Emília diz que não sabe, mas acrescenta “o espaço é lindo, lindíssimo”.

Entretanto, chegam Álvaro Ferreira, 38 anos, e o filho João, de seis. As colaboradoras bem tentam chamá-lo, mas o pequeno rapaz sente-se assustado e diz ao pai que quer ir ver a sala da “Guerra das Estrelas”. Vamos com eles. Álvaro é engenheiro informático e costuma vir todos os anos ver as exposições. “Este ano acho que o tema da tecnologia e ficção científica está interessante, mas tenho que ver as coisas com mais calma”, explica. Hoje veio com o João, que aponta para todos os lados reconhecendo os bonecos da trilogia de George Lucas “olha pai, é o R2D2!”, diz entusiasmado e aos saltos para tentar ver a vitrina com as figuras. Álvaro confessa que vai voltar outro dia para explorar melhor a nave.

A visita do almirante Conan Antonio Motti

O que eles não sabem é que mesmo ali ao lado, na sala de conferências vai começar a falar Richard LeParmentier, um dos actores que participou no primeiro e mais antigo filme da Guerra das Estrelas, “Episódio IV: Uma Nova Esperança”. O almirante Conan Antonio Motti não foi uma das personagens emblemáticas da famosa saga. Ainda assim, aquela cara não é estranha a quem se aproxima e o ar seguro com que fala dá vontade de ficar a ouvi-lo. Sempre que alguém chega, o actor mete conversa. Até que pergunta: “sabem quem eu sou?”. Ninguém diz que não. LeParmentier continua então a falar do que pensa, de cinema, de banda desenhada e até da sua participação no famoso filme de animação: “Quem tramou Rogger Rabbit?”.

A maior parte da audiência ronda os trinta a quarenta anos e são pessoas apaixonadas pelo universo da Guerra das Estrelas, em destaque no FIBD 2008.

Deixamos esta parte da nave e voltamos para a zona comercial, na entrada para o piso inferior.

A meio da tarde, as pessoas compram apressadas os livros dos seus autores favoritos, as sessões de autógrafos estão quase a começar e sente-se aquele burburinho que indica que vai acontecer alguma coisa.

As bancas estão organizadas como se fosse um mercado. A única diferença é que para se distinguirem os “alimentos”, não basta sentir o cheiro, é preciso conhecer. E quem compra sabe bem o que quer, conhece as editoras e procura essencialmente o que é fresco.

Nuno Tito, 24 anos, é organizador de eventos e confirma que “vale a pena comprar as novidades, o resto dos livros encontra-se durante todo o ano”. Apressado explica porque está ali: “venho pelos autógrafos”. “A caça” vai começar dali a nada e Nuno não é esquisito: “quero conseguir assinaturas de todos”.

No entanto, nem todos pensam assim. Na zona dos autógrafos já é bem claro qual é a preferência das pessoas. Uma fila de mais de trinta pessoas, entre as quais muitas crianças, espera para chegar à frente e conhecer o autor da irreverente Mónica e dos seus amiguinhos de turma. Maurício de Sousa, o autor das personagens, é o mais calmo de todos. Sem pressas desenha os bonecos cujos traços já sabe fazer de trás para a frente.

Decidimos esperar junto de alguém. Com o pai, Rui Leitão, 36 anos, está Sofia, de sete anos e meio. Vêm todos os anos à Amadora, mas hoje é a primeira vez que pedem um autógrafo. Tudo por causa da desembaraçada Sofia que fala pelos cotovelos e que nos conta: “já me disseram que sou parecida com a Magali”. “Mas tu não gostas de melancia”, responde com ternura o pai. Isso pouco importa, para a pequena Sofia o mais importante é falar, o resto é conversa.

Enquanto a fila não anda, Rui Leitão aproveita para contar que é um apaixonado pela Banda Desenhada desde muito novo e que começou pelo Tintim. Prefere os autores franco-belgas mas explica que “é um gosto que se cultiva”. “Hoje leva oito livros”, quem o diz é de novo Sofia que é a primeira a denunciar a paixão do pai.

"Cebolinha"

Quando chegamos à frente, não há tempo para hesitações e a pequena Sofia acaba por optar pelo “Cebolinha”, que o cartoonista desenha em menos de 30 segundos. Pede a Maurício de Sousa para que seja na última página “para quando acabar de ler ainda ter mais um desenho”, remata convincente.

A nossa viagem está quase a terminar, a tarde também.

Antes de seguirmos para o andar de cima, para ver o que nos falta, paramos para descansar um pouco, nos bancos da parte lateral da nave cósmica.

Metemos conversa com um rapaz e com quem o acompanha. Parecem nervosos. O que não sabíamos era que dali a nada José Barroca, de 16 anos, iria receber um dos prémios do Concurso de Banda Desenhada promovido pelo festival. Veio acompanhado do professor de Educação Visual, Ricardo Ferreira, que lhe pegou o gosto pelos quadradinhos na escola de Arganil, onde estuda. O professor diz-nos que “não é fácil ensinar BD, porque implica muito tempo”.

De novo no Astroporto, sabemos exactamente o que queremos ver antes de sair. Cá está ele. O trabalho do José Barroca: “Tecno 3000”, o segundo lugar do escalão B até aos 17 anos.

Publicado por jmachado em novembro 6, 2008 09:46 AM | TrackBack
Comentários

Gostei do Subtil protesto da Inês.

Como o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora tem o módulo principal no Fórum LuiZ (com Z, porra!) de Camões, ela optou por escrever apenas FIBD, em vez de FIBDA.

Porque, a acreditar nos que dizem que o Fórum é na Brandoa (e a estação de Metro mais próxima é a de Alfornelos, grande confusão territorial...), a sigla deveria ser FIBDB.

Escrevendo-se FIBD, dá para tudo. Basta ter um festival de BD com um estrangeiro.

Ora aí está.

Afixado por: Luís Graça em novembro 7, 2008 06:27 AM
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