

Diário As Beiras, 22 de Novembro de 2008
O REGRESSO DO MAJOR ALVEGA
João Miguel Lameiras
Um livro acabado de lançar pela BdMania traz de volta um herói, velho conhecido dos leitores portugueses, mas que na realidade nunca existiu. Esse herói é o Major Alvega, personagem que fora de Portugal é conhecido pelo seu verdadeiro nome, Battler Britton.
Nascido em 1956, na revista “Sun”, com argumento de Mike Butterworth e desenhos de Geoff Campion, Robert Herward Britton, mais conhecido como “Battler” Britton, foi mais um entre muitos heróis de guerra que enchiam as páginas das revista da época. Em histórias curtas, que não primavam pela sofistificação dos enredos, Battler Britton viveu centenas de aventuras, em que praticamente sózinho destruiu todo o exército alemão. Essas histórias eram ilustradas de forma anónima por grandes desenhadores, como Ian Kennedy, Graham Coton, José Ortiz, Luis Bernejo, Solano Lopez e até Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese, que ilustrou um episódio que em Portugal foi publicado no nº 417 da revista “Falcão”, em cujas páginas o inglês “Battler” Britton foi tranformado no luso-britânico Jaime Eduardo de Cook e Alvega.
Uma mudança imposta pela legislação portuguesa para as publicações infantis aprovada pelo Estado Novo nos anos 50, que obrigava a “nacionalizar” os heróis de BD estrangeiros, mas que no caso do Major Alvega acabou por resultar muito bem em termos comerciais, contribuindo para a identificação dos leitores portugueses com o às da aviação inglesa. Uma identificação que se manteve durante décadas e que já na década de 90, daria origem a uma divertida e inovadora série de televisão, com Ricardo Carriço como Major Alvega.

Mas o mérito desta bem sucedida “nacionalização” de um herói menor da BD inglesa, deveu-se acima de tudo a Mário do Rosário, director da revista “O Falcão”, que foi quem criou a biografia alternativa de “Battler” Britton, rebaptizando-o como Jaime Eduardo de Cook e Alvega, filho de pai ribatejano e mãe inglesa, com uma passagem pela Universidade de Coimbra antes de se alistar na R.A.F. para defender a pátria da sua mãe das tropas alemãs.
É esse herói, mítico para quem o descobriu nas décadas de 60 e 70 do século XX, que agora regressa, adaptado ao século XXI, num livro da Bdmania que recolhe a mini-série de Garth Ennis e Colin Wilson, publicada pela WildStorm em 2006, para assinalar o quinquagésimo aniversário da personagem.
Ennis, que é um especialista em histórias de guerra (além de um dos mais populares argumentistas a trabalhar nos comics americanos) sente-se como peixe na água nesta história, em que o Major Alvega enfrenta as tropas de Rommel nos céus e nas areias do deserto africano, ao lado da aviação americana, mostrando-se igualmente mortífero e eficaz tanto nos combates aéreos como nas missões clandestinas em terra.
Ainda que Ennis tente dar da guerra uma versão mais realista do que a que era transmitida nas histórias originais dos anos 60, a verdade é que Alvega continua o mesmo combatente incansável e invencível, capaz de incríveis proezas, que o desenho dinâmico e rigoroso de Colin Wilson (tão à vontade a desenhar aviões e tanques, como a desenhar cavalos e cowboys na “Juventude de Blueberry”, ou no “Tex gigante” que desenhou para a editora Bonelli) ajuda a tornar credíveis.
Mesmo não sendo dos trabalhos mais marcantes de Garth Ennis (longe disso) esta nova aventura do Major Alvega é uma boa história de guerra, contada de forma escorreita e muito bem desenhada. Mas, numa perspectiva nostálgica, a opção da tradução portuguesa (muito cuidada no uso dos termos técnicos de aviação) em manter o nome de Battler Britton ao longo da história, não optando pelas liberdades criativas da versão do “Falcão”, retira muito da mística que a série tinha.
É por isso que, tal como tive ocasião de escrever no prefácio à edição da BdMania: “para mim, o inglês Robert Herward Britton é e será sempre o luso-britânico Jaime Eduardo de Cook e Alvega.”
(“Battler Britton: Major Alvega”, de Garth Ennis e Colin Wilson, BdMania Edições, 120 pags, 12 €)


PÚBLICO, 27.11.2008
EM GOTHAM NADA SERÁ COMO DANTES
Joana Amaral Cardoso
Ontem foi "o fim de Bruce Wayne como Batman".
A DC Comics jogou o trunfo da história-choque com a sua marca mais valiosa do momento. Alguns fãs estão inquietos. Batman está num ponto de viragem e alguém vai ter de vestir a sua capa.
No ano em que o franchise Batman atingiu o seu maior sucesso monetário de sempre - o filme Cavaleiro das Trevas fez 775 milhões de euros de receitas, bateu recordes de bilheteira e está em plena corrida para os Óscares -, a DC Comics infligiu ontem um rude golpe na sua personagem. Batman morreu? Não é certo. Bruce Wayne é que já não está em condições vitais de ser Batman. Ontem, o livro 681 da narrativa Batman R.I.P. chegou às bancas americanas. O autor, Grant Morrison, garante: "Este é o fim de Bruce Wayne como Batman."
O livro (edição mensal) só deve chegar a Portugal em Dezembro e até ao fecho desta edição o seu conteúdo ainda não era totalmente conhecido, devido à diferença horária. Mas o futuro de Batman está em causa. O sucesso dos filmes tornou a história criada por Bob Kane e Bill Finger, em 1939, em sabedoria popular. Em criança, Bruce Wayne viu os pais serem mortos num assalto em Gotham e, anos depois, vestiu uma capa de morcego e criou uma superidentidade vingativa. Agora a capa terá ficado vazia. E alguém vai ter de vesti-la.
Antes disso, recapitulemos a história recente de Batman nos livros. Na saga Batman R.I.P., Batman tem uma nova namorada, Jezebel Jet, e confronta-se com um misterioso inimigo de seu nome Black Glove. É capturado e levado à insanidade através de uma droga - uma espécie de heroína para o Juízo Final - e, depois de inúmeras peripécias em Gotham, acaba por sucumbir aos poderes de Black Glove. E irá sofrer "um destino muito pior do que a morte", nas palavras de Grant Morrison, o argumentista escocês que desde 2006 está à frente da narrativa Batman. "As pessoas já mataram outras personagens no passado, mas para mim isso põe fim à (própria) história", disse Morrison ao site Comic Book Resources (CBR) em Abril. "Por isso, o que vou fazer é um destino pior do que a morte." As imagens reveladas na Internet, da autoria de Tony Daniel e Sandu Flores, mostram Batman amarrado num caixão.
A ideia deixou os fãs atónitos. "Não consigo imaginar que a DC sequer PENSE em matar o Bruce. (...) O Bruce É o Batman", dizia anteontem um incrédulo leitor no fórum Killer Movies. Esgrimem-se argumentos sobre quem poderá ser o sucessor de Wayne, quem será o seu assassino (se é que Wayne morre), mas sobretudo sobre qual a ideia da DC para o herói. É que até se pensa que Wayne sobreviverá, mas com uma personalidade alternativa ou uma mente em mau estado.
Choque e mercado
A teia dos livros de BD da DC está particularmente complexa. Cronologicamente, a R.I.P. segue-se Final Crisis, uma série de sete livros já em curso em que Bruce Wayne ainda será Batman, mas um Batman distinto do que conhecemos devido aos acontecimentos do livro n.º 681, segundo Morrison. Depois, entra em cena Neil Gaiman (criador da personagem de culto Sandman), que está a escrever um especial de dois livros de homenagem à personagem, Whatever Happened to the Caped Crusader?. Haverá ainda Battle for the Cowl (a luta pelo capuz de morcego, da autoria de Tony Daniel), que determinará quem será o "novo" Batman. E depois Morrison retoma a sua personagem de uma forma totalmente nova, como prometeu no site IGN.
Confusos? Eis uma explicação adicional de Don DiDio, o vice-presidente da DC, ao New York Times: "Percebemos, na sua ausência, quão valiosa é a personagem. Bruce Wayne voltará sempre como Batman algum dia." E Neil Gaiman, que diz que o livro duplo que está a preparar será a sua "última história Batman", descansa os fãs: "Nenhum franchise [de BD] se encerra para sempre."
Grant Morrison também está à frente do franchise All Star Superman, que já cheira a morte, e da série Final Crisis, em que o universo da DC se apresenta em crise e no qual será conhecido o destino final de Batman (ou da sua capa). Isso não é um acaso, reflecte o argumentista. "Ou significa que vou morrer no próximo ano", brinca, "ou então tenho estado a tomar o pulso a qualquer coisa, especialmente desde o 11 de Setembro." Para o argumentista escocês, está no ar "a sensação de que toda a cultura está bastante obscura e ameaçadora". "Parece o fim da civilização ocidental e que, de alguma forma, todos temos culpa disso."
A verdade é que o signo da morte não é estranho nem à personagem nem aos seus inimigos. Batman já morreu nalguns dos livros, embora sendo ressuscitado momentos depois. E no ano passado o Capitão América (Marvel) encontrou a morte às mãos de um sniper à entrada de um tribunal de Nova Iorque. Voltou este ano, com o uniforme passado a Bucky, o seu ajudante. Já em 1992 o Super-Homem morrera às mãos do vilão Doomsday para ressuscitar algum tempo depois.
A morte de Bruce Wayne não surpreendeu o ilustrador português Ricardo Tércio, que acaba de publicar o seu segundo livro para a Marvel. "Era inevitável, o Batman é mais uma marca e a concorrência entre a DC e a Marvel é quase pior do que entre a SIC e a TVI", ri-se. É que no meio de tudo isto há o lado negocial.
Nos anos 1990, a par da bolha das dot.com, outra vaga de especulação mercantil insinuava-se no mercado. Os comics vendiam em quantidade avassaladoras nos EUA, talvez só equiparáveis às da sua era dourada, sobretudo porque cada número poderia revelar-se uma mina de ouro futura, uma raridade que renderia milhões num leilão vindouro. Foi nessa altura que a DC matou o Super-Homem.
Quinze anos depois, a Marvel tentava renovar a estratégia com a morte do Capitão América, resumida ao P2 no início deste ano por Christopher Knowles, autor de Our Gods Wear Spandex: The Secret History of Comic Book Heroes, como "um belíssimo golpe publicitário". São narrativas-choque que pretendem gerar notícias, conversas, posts na Internet sobre o tema. Casamentos, funerais ou horríveis traições são ingredientes nada secretos nestas receitas. Como a revelação de que Batman tinha um filho, novidade da autoria do próprio Grant Morrison.
"O lado comercial é muito importante, sobretudo agora que a Marvel está a vender um pouco mais do que a DC", explica Ricardo Tércio. É preciso causar um shazam! e o desenhador tem a certeza de que este n.º 681 de Batman vai "rebentar com as vendas".
Segredo da popularidade
O ilustrador explica que, "como outros já morreram, o Batman ou o Bruce Wayne", corrige, tinha de morrer, quanto mais não seja porque é humano". Esse é, aliás, o segredo da sua popularidade. "O Batman é um dos super-heróis mais adorados porque as pessoas se identificam com ele." A personagem preferida do universo dos super-heróis de Ricardo Tércio é mesmo o "negro e trágico" Batman. Fala como quem o conhece bem.
"Acho que ele quer morrer", diz sobre Bruce Wayne. "Para se aliviar da culpa, do seu debate eterno com o seu lado negro, talvez para se juntar aos pais", explica, depois de um olhar, na Internet, para a capa do novo livro, desenhada por Alex Ross. "Tem um sorriso de serenidade, ligeiro, de alívio", arrisca.
As casas de apostas online já estão a tentar prever quem traiu e quem substituirá Bruce Wayne. Há especulação, alimentada pela própria DC, de que pode ter sido um dos Robins (há vários). Ou ainda Catwoman, ou Jezebel, ou ainda Hush, um outro vilão, ou o próprio Super-Homem. A mesma futurologia se faz em relação ao sucessor. Com os Robins e um Batman do futuro (Damian) a concorrer ao cargo.
O futuro à DC pertence. É que "não há continuidade cronológica hoje no mundo dos comics", argumenta Tércio. "Os números principais podem estar a seguir um arco narrativo como este (R.I.P.), mas daqui a 15 dias, e depois da polémica, volta tudo ao normal." Seja lá o que isso for no mundo da BD.
Publicado por jmachado em novembro 28, 2008 08:14 AM | TrackBack"Mas, numa perspectiva nostálgica, a opção da tradução portuguesa (muito cuidada no uso dos termos técnicos de aviação) em manter o nome de Battler Britton ao longo da história,"
Que é aonde a editora(s) peca mais nas fracas traduçoes ver os 2 volumes de astonishing x-men traduzidos por eles.
E mesmo nesse depois de usar sempre o termo Battler Britton ,ainda lhes escapa o Alvega numa das paginas.
"O livro (edição mensal) só deve chegar a Portugal em Dezembro e até ao fecho desta edição o seu conteúdo ainda não era totalmente conhecido, devido à diferença horária."
Dezembro do ano que vem uma vez que nem foi editado no Brasil ainda pela Panini. :(
Estou fartinho destes golpes mentecaptos para estas Editoras fazerem dinheiro (DC e Marvel). Quoq tu Morrison?! Matem-nos todos, fosga-se! É que depois farão mais algum quando, mais uma vez, os ressuscitarem.
Afixado por: refemdabd em novembro 29, 2008 12:24 PM