

CRIADOR DE BANDAS DESENHADAS E UM PROVOCADOR SUBLIME
13.12.2008, Carlos Pessoa
Autor atípico e inclassificável, deixou uma obra polémica que lhe valeu críticas duras à esquerda e à direita. É uma pena ser quase desconhecido em Portugal.
Ainda a ressaca dos acontecimentos de Maio de 68 não tinha acabado e já uma voz se erguia contra o conformismo e as incongruências dos órfãos da revolução. Chamava-se Gérard Lauzier, um criador de bandas desenhadas que se dedicava a dissecar, com acidez e ironia, tudo e todos - os intelectuais egocêntricos, os publicitários envergonhados, os defensores nostálgicos do regresso à terra, os artistas falhados, os chefes de família da nova ordem reinante. Em suma, os sinais identificadores do refluxo ético, social e cultural que atravessou a sociedade francesa nos anos 70 e 80 do século passado.
Autor de banda desenhada atípico e, de certa forma, inclassificável, Lauzier teve a sua época de ouro no período entre 1975 e 1985, anos em que colaborou na revista Pilote, da qual foi um dos esteios. Se existe uma obra culminante no percurso deste homem nascido em Marselha a 30 de Novembro de 1932, ela chama-se Tranches de Vie (cinco álbuns). Durante esse período, fez da "esquerda caviar" o seu alvo preferencial, desnudando sem pudor a má consciência de um certo tipo de pessoas, bafejadas pelo êxito social, que não tinham pejo em desenvolver um discurso autojustificativo dos seus comportamentos acomodados.
As suas críticas congregaram um coro de acusações. Criador polémico por excelência, o desenhador foi acusado de ser reaccionário, racista - e mesmo fascista - à esquerda, mas também anarquista e esquerdista à direita. Lauzier, um autor ambíguo? "O que posso dizer em minha defesa é que me limito a contar histórias que acontecem à minha volta, e que relato à minha maneira", respondia em Janeiro de 1993 numa entrevista ao PÚBLICO, imediatamente a seguir à sua consagração no Festival Internacional de BD de Angoulême, onde lhe foi atribuído o Grande Prémio Alph-Art. Controverso? "O pequeno meio intelectual em torno da BD era sobretudo de esquerda e eu sou um homem de direita. Mas a verdade é que nunca quis ser premeditadamente mau, nem sou fascista!..."
Na mesma entrevista, Lauzier admitia que todas aquelas acusações o "divertiam imenso", para logo a seguir explicar o que o fazia correr: "Há uma geração de autores franceses que têm no quotidiano a sua matéria-prima - é o caso de Veyron, Bretécher ou Margerin - e então basta olhar à volta para 'apanhar' os fragmentos do quotidiano".
BD, cinema e teatro
Silencioso desde 1992, ano em que publicou o último álbum, Gérard Lauzier morreu no passado dia 6 de Dezembro na sua casa em Paris. "Na sequência de doença prolongada", disseram as agências noticiosas.
A biografia oficial do artista fala de uma passagem pela École des Beaux Arts de Paris, partindo depois para o Brasil em 1956. Trabalha em publicidade e faz caricaturas no Jornal da Baía. Dá-se muito bem com os ares tropicais, mas nem por isso com a ditadura militar, regressando a França em 1965. Torna-se desenhador de humor, actividade que desenvolve até 1974. Nesse ano, começa a dedicar-se à BD, sobretudo na revista Pilote. A sua bibliografia regista uma mão-cheia de álbuns, mas pára em 1983, se exceptuarmos um regresso efémero em 1992 (Portrait d'Artiste).
Mas Lauzier era incapaz de se manter inactivo. O cinema foi outra área onde deixou marca, com filmes que realizou (Tranches de Vie, 1985, ou Mon Père, Ce Héros, 1991, etc.) ou assinou o respectivo argumento (Je Vais Craquer, 1979, Psy, 1980, ou À Gauche en Sortant de l'Ascenseur, 1988). São também dele os diálogos de Astérix et Obélix versus César (1999). Da passagem de Lauzier pelo teatro destaca-se sobretudo a encenação de peças construídas a partir de alguns dos álbuns de BD.
Contundente na sua produção artística, Lauzier era um homem "caloroso" e "reservado", realçou Philippe Ostermann, o seu editor na Dargaud. Martin Veyron, autor de banda desenhada, conviveu com ele de perto: "Quando o conheci, esperava encontrar um macho grosseiro, mas ele era de uma enorme delicadeza", declarou ao jornal Le Monde. "Não era uma criatura mundana, nem um elemento desse show-bizz que descreve nas suas bandas desenhadas, era um sonhador, um distraído." Régis Franc, outro camarada de profissão, conhecia-o desde 1977 e destaca sobretudo a sua "inteligência" e "desapego", rejeitando a ideia que fosse um reaccionário ou um homem
de direita.
Criticar ou comover
O olhar mortífero com que outrora viu a realidade dera lugar, em tempos mais recentes, a uma visão mais amena das coisas. Numa entrevista ao Journal de Dimanche, em 1998, Lauzier falava dos que o criticavam por "ter-se perdido o lado provocador das minhas bandas desenhadas". Respondia a isso que, agora, tinha vontade de "comover, fazer rir e dar esperança no momento em que o discurso ambiente é totalmente negativo e em parte falso". Talvez por isso, a ministra francesa da Cultura, Christine Albanel, evocou o "artista original", acrescentando que os seus álbuns, "tintados de ironia e de humor vivo e corrosivo, marcaram uma época".
Para o crítico e livreiro João Miguel Lameiras, Lauzier era "o típico autor francês" - de facto, apenas um álbum da série Coisas da Vida e A Corrida do Rato, foram publicados em Portugal -, caracterizado por "um humor de crítica social e de costumes": "Foi alguém importante nos anos 70 e 80 do século passado, mas com pouco significado para os leitores de hoje".
O investigador Leonardo de Sá tem outra visão. "A crítica latente e presente nas histórias de Lauzier continua a ser muito válida hoje", diz. "No período pós-Maio 68, parecia haver coisas e acontecimentos do dia-a-dia da sociedade francesa que deviam ser ditos; mas como tinham um carácter relativamente universal, eram válidos em outros países com um esquema de vida mais ou menos semelhante. O mundo não mudou assim tanto desde então e, por isso, as suas histórias são perfeitamente entendíveis por jovens de hoje que não viveram aquela realidade. A crítica é que mudou, pois deixou de existir - pelo menos naqueles termos."
Integrado numa geração de criadores surgidos nas revistas nas últimas décadas do século passado, Lauzier é responsável, com Gotlib, Alexis, Solé, Mandryka e muitos outros artistas, pela viragem da BD para uma dimensão mais adulta.

Jornal de Notícias, 9 de Dezembro de 2008
GÉRARD LAUZIER, HOMEM DA BD, DO TEATRO E DO CINEMA
Pedro Cleto
Gérard Lauzier, autor de BD, dramaturgo e cineasta faleceu aos 77 anos.
Nascido em 1932, licenciou-se em Filosofia, derivou depois para arquitectura e acabou a fazer desenho de imprensa e publicidade. Em 1974, chegou à BD, na "Pilote", com "Lili Fatale" e, depois, "Tranches de Vie", crónicas do quotidiano e das relações humanas, feitas em traço rápido e nervoso, simples suporte da sua veia mordaz e irónica. Em português tem traduzidos "Coisas da Vida" e "A corrida do rato".
Nos anos 80 afastou-se da 9ª arte, adaptando algumas das suas criações para teatro e cinema, tendo escrito igualmente os diálogos de "Astérix e Obélix contra César". Em 1992 teve um fugaz regresso à BD com "Portrait de L'artiste", recebendo no ano seguinte o Grande Prémio de Angoulême pelo conjunto da sua obra.
Copyright: © 2008 Jornal de Notícias; Pedro Cleto
E o nosso tributo a Gérard Lauzier

--------------------------------------------------------------------------------------------
KINGPIN OF COMICS PASSA A KINGPIN BOOKS E INAUGURA NOVA LOJA.
Pois é, Mário Freitas já o tinha anunciado no FBDA 2008 e assim foi. No dia 22 de Novembro a Kingpin inaugurou a nova loja na Rua Quirino da Fonseca, nº 16 B, quase ao lado do antigo Cinema Império. Aqui ficam as fotos da inauguração, sacadas do blog do Mário Kingpin Freitas Books, porque quando eu lá fui fazer fotos antes da inauguração, nada estava ainda pronto (fui demasiado cedo), então arquivei as minhas fotos e resolvi esperar pelas imagens no referido blogue que pode ser visitado AQUI.



E ATENÇÃO: O Mário tem lá TODOS os números do BDjornal e TODOS os livros da Pedranocharco. Portanto, quem anda às aranhas em Lisboa à procura do BDj, vá à Kingpin Books, que o encontra lá e pode ser que leve mais alguma coisa que lhe interesse!!!
(Isto pode parecer um comercial, mas não é, OK? É pura solidariedade!!)
Já agora, Teresa Gambuzina C. Pestana (comento o teu comentário ao post anterior), os albatrozes precisam de ser salvos, os pandas precisam de ser salvos, as baleias precisam de ser salvas, os tigres precisam de ser salvos, os orangotangos idem, idem, aspas, aspas, etc... por aí fora e nós não podemos fazer mais nada senão alertar as "pessoas". Aquilo que penso é simples: enquanto a esmagadora maioria dos ditos "seres humanos", ou "pessoas" não pensar - nem que seja uma vez por dia - que é um simples animal da espécie homo sapiens, nada poderá ser salvo neste planeta, nem o próprio planeta sequer!!! Leiam, por favor, esses livros que foram uma espécie de bíblias para a minha geração e que se intitulam O Macaco Nú e O Zoo Humano, do biólogo Desmond Morris, para começarem, ao menos, a catar os sovacos à laia dos nossos primos chimpanzés! E depois falamos...
Publicado por jmachado em dezembro 17, 2008 08:55 PM | TrackBackTenho pena pelo desaparecimento de Lauzier. Era um dos maiores humoristas vivos.
Daqueles dotados de um revigorante humor corrosivo.
Dqueles que nos fazem rir demoradamente metendo-nos à frente um espelho bastante cru, deixar-nos um nó na garganta ou por vezes um substancial par de cornos e uma enorme vontade de ler o resto da sua obra.
Daqueles cujo trabalho não se esquece.
Daqueles dos...
Dos geniais.
Daqueles que não repetem semanal e eternamente a mesma e limitadinha receita.
Para os que não conhecem, recomenda-se A Corrida do Rato.
Para começar.
Podes crer: Lauzier era um grandes humoristas vivos. Precisamente ao contrário de ti, cujas piadas são rançosas e tacanhas. Bem, em relação aos teus desenhos, estamos conversados, julgo?
Afixado por: galinha assassina em dezembro 18, 2008 01:14 AMe o comentário ao comentário é ; há quanto tempo sabemos que tudo isso tem de ser salvo? e o que é que mudou?agora temos a primeira geracäo de criancas menos saudáveis que os seus pais coisa que näo aconteceu antes nunca na história da humanidade ,pesticidas mau ar alergias diabetes má comida etc etc , os humanos teem de ser salvos?ou será uma bencäo se pelo menos metade morrer ( eu posso ser uma dessa metade)
Afixado por: teresa em dezembro 18, 2008 10:29 AMlauzier é daqueles casos raros que poe todos os podres da direita e da esquerda contra ele,e isso é o melhor sinal dos tempos que algum autor pode dar,um pioneiro da mensagem "a decadencia da democracia" ,um verdadeiro olhómetro sem meias tintas e meias hipocrisias , seguindo a sua propria cabeca que é uma coisa que tem vindo a cair em desuso
Afixado por: gambuzina em dezembro 18, 2008 10:34 AM