dezembro 29, 2008

RECORTES 15 - CARLOS PESSOA (IN PÚBLICO - ASTERIX NUMA ENCRUZILHADA) E EXPOSIÇÃO NA BEDETECA DE BEJA

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ASTÉRIX NUMA ENCRUZILHADA

29.12.2008, Carlos Pessoa

O herói da banda desenhada mais famoso do mundo mudou de mãos. Uderzo e a filha de Goscinny venderam direitos editoriais à Hachette, e há quem fale no fim de uma época. O futuro do personagem é a grande incógnita.

Os valores da operação não foram divulgados, mas o negócio está feito: a Hachette, primeiro grupo editorial francês, comprou 60 por cento das Éditions Albert René e passa a controlar a exploração do universo Astérix.
Um comunicado da empresa (grupo Lagardère) confirmou que foram adquiridos os 40 por cento da participação de Albert Uderzo, criador e desenhador de Astérix, e os 20 por cento de Anne Goscinny, filha de René Goscinny, o outro criador da série e argumentista até 1977, ano da sua morte. Ficou ainda a saber-se que foi também negociada a aquisição dos direitos de edição, para todo o mundo, dos 24 álbuns de Astérix publicados enquanto Goscinny era vivo. Uderzo e Anne Goscinny conservam os direitos de autoria da obra (50/50 para as histórias com argumentos de Goscinny, 75/25 para as realizadas apenas por Uderzo).
Na prática, a Hachette passa a controlar a totalidade da vertente editorial de Astérix, assim como os direitos derivados (merchandising) associados ao personagem, incluindo o segmento audiovisual.
Esta transacção é o maior negócio editorial do ano no campo da banda desenhada, abrindo perspectivas inteiramente novas para o futuro do pequeno herói gaulês. De um ponto de vista estritamente económico, o que está em causa é gigantesco. Desde a criação da série em 1959 - fará 50 anos em 2009, estando em preparação um ambicioso programa de comemorações - já foram vendidos mais de 325 milhões de álbuns em todo o mundo. Segundo a revista Livres Hebdo, as Éditions Albert René, criadas em 1979 por Uderzo para gerir as operações ligadas à série, atingiram em 2007 um volume de negócios de 11,3 milhões de euros. A isto há que juntar a exploração do Parque Astérix, em França, que tem dado sempre lucro. Por fim, são de referir as rentáveis longas-metragens realizadas com actores reais, cujos níveis de audiência têm batido recordes em França e gerado receitas consideráveis.

Decisão "sensata"

Didier Pasamonik, crítico e chefe de redacção da Agence BD (agência francesa on-line de informação sobre banda desenhada), não se mostra surpreendido com o negócio. A ligação empresarial entre Uderzo e a Hachette já vem de 1998, recorda. Na sequência de um longo pleito judicial com a Dargaud para recuperar os direitos de edição e distribuição dos 24 títulos realizados conjuntamente com Goscinny, Uderzo ganhou o processo. Surpreendentemente, entregou a distribuição à Hachette em vez de a reservar para as Éditions Albert René. A razão, diz Pasamonik, é que "a filha de Goscinny detinha 20 por cento desta empresa e a entrega dos títulos [às Éditions Albert René] poderia romper os equilíbrios entre os detentores dos direitos e os accionistas".
À luz de recentes conflitos com a sua filha única, Sylvie Uderzo, a quem retirou a gestão da empresa há 18 meses, a decisão de Albert Uderzo é considerada "sensata". Didier Pasamonik lembra os 81 anos do desenhador e sublinha a inteligência de "confiar a sua obra a um operador neutro, mas competente e poderoso, que assegurará uma gestão a longo prazo".
Mesmo desdramatizando a importância do negócio ("uma banal questão de transmissão de direitos entre empresas"), Pasamonik defende que ele representa "o fim de uma época, em que os pioneiros da banda desenhada controlavam a gestão dos seus direitos patrimoniais":
"Desde há vários anos, com o desaparecimento dos seus criadores, a maioria das grandes séries que fizeram a glória da banda desenhada franco-belga - Tintin, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Schtroumpfs, Marsupilami, Boule & Bill, Achille Talon e Cubitus - é animada por outros talentos que não os seus criadores originais e explorada por grandes grupos editoriais."
Negócio banal ou não, a verdade é que as consequências no panorama editorial e no próprio futuro de Astérix podem ser muito profundas.
O crítico Laurent Mélikian (L'Écho des Savanes) não acredita que as coisas mudem muito para a série. Apesar da idade, Uderzo tem uma "saúde apreciável" e "continua a ser o timoneiro a bordo". E admite que possam surgir "novas iniciativas editoriais à imagem do que a Casterman faz com Tintin ou Corto Maltese":
"Talvez os dirigentes nomeados pela Hachette tentem explorar mais depressa uma solução de publicação electrónica com Astérix. Mas caberá a Uderzo a realização de um novo álbum - se puder - e, provavelmente, confirmar que não haverá novas histórias de Astérix após o seu desaparecimento."

Explorar a personagem

Yves Frémion, crítico e divulgador de BD (Fluide Glacial e Papiers Nickelés), acha que o desenhador já não fará um novo álbum de Astérix. Por isso, "a questão axial é saber se Uderzo e Anne Goscinny aceitaram deixar à Hachette a 'continuação' da BD por outros desenhadores". Os casos conhecidos de Blake e Mortimer ou dos Pieds Nickelés, acrescenta Frémion, não provam a justeza da medida: "Esquece-se que uma obra, incluindo as personagens, exprime a alma do seu ou seus autores e que sem eles ela deixa de existir, mesmo se o personagem é sedutor. Hergé compreendeu-o quando estava vivo e proibiu que Tintin lhe sobrevivesse com outro grafismo."
Neste quadro, Yves Frémion vaticina que "a lógica que vai ser adoptada será fazer entrar mais dinheiro com as diversas explorações das personagens e não a de gerir, de modo artístico, a obra de dois artistas importantes". O problema é que a Hachette é "um dos editores menos 'artísticos' do panorama editorial"; a sua força comercial "é enorme", mas só "tem coleccionado fracassos na banda desenhada, nunca tendo compreendido que, para ter êxito, são precisos serviços comerciais especializados e directores de colecção competentes".
Apesar de tudo isto, o êxito futuro do grupo editorial Hachette parece tudo menos incerto. "Gerir direitos de autores que vendem muito depois da sua morte tornou-se um comércio tão sumarento como vender armas aos ditadores", comenta Frémion. "O episódio Hachette-Albert René é o último avatar dessa conquista de mercados pela empresa de Jean-Luc Lagardère."
A leitura de Laurent Mélikian vai no mesmo sentido. "Até há pouco tempo a Hachette quase não estava presente na edição de banda desenhada, se excluirmos o fundo Astérix. Há alguns meses comprou a Pika, uma editora especializada em banda desenhada japonesa. Agora adquiriu as Éditions Albert René. Que outras iniciativas virão a seguir?"

E... PARA QUEM QUISER IR A BEJA PASSAR O FIM-DO-ANO, TEM UMA EXPOSIÇÃO INTERESSANTE NA BEDETECA DE BEJA - CASA DA CULTURA - GALERIA DE EXPOSIÇÕES TEMPORÁRIAS:

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A ESFEROGRÁFICA DE VILAS
Exposição de Desenho

De 12 de Dezembro a 30 de Janeiro

Cafetaria da Casa da Cultura e Galeria de Exposições Temporárias da Bedeteca de Beja (1º andar da Casa da Cultura – Ala esquerda)

Vilas nasceu na aldeia de Vila Azedo, em 1962. Viveu parte da infância em Vila Azedo, que só deixou quando o pai foi trabalhar para a Base Aérea de Beja. A família mudou-se então para Beja e Vilas já acabou a 4ª classe na cidade. Começou a desenhar desde que se lembra. Desenhava porque gostava, “era uma inclinação natural”. Todos gostavam dos desenhos, mas ninguém o aconselhou a seguir uma carreira artística. Na altura “não se pensava nisso”.

No 8º ano deixou a escola e foi trabalhar como operário. Andou “aos saltos”, como refere, mas sempre com o desenho a roer-lhe os calcanhares. Era um “desenhador de café”. Fazia desenhos em guardanapos e nos papéis que lhe iam aparecendo pela frente, “para oferecer aos amigos”.

A partir dos 35 anos começou a fazer as coisas com outro método. Comprou várias esferográficas de cores diferentes e desenhou uma série de carteiras de fósforos. Mais de 200… Os temas que o inspiraram na altura, são, em grande parte, os mesmos que o inspiram agora: animais, florestas, o Alentejo, a guerra, a poluição, o suicídio, a solidão… São os temas que o preocupam e que o atormentam…

Em 2004 concorreu à Galeria Aberta e o trabalho acabou por ser exposto na Casa das Artes – Museu Jorge Vieira. Ganhou uma Menção Honrosa e estímulo para continuar (das 3 vezes que concorreu ganhou 2 menções honrosas). O facto de ter sido bem sucedido deu-lhe vontade de fazer ainda mais, “mas se não tivesse sucesso continuava a desenhar na mesma”. Em 2006 fez uma exposição individual na Casa da Cultura. Vendeu alguns trabalhos e recebeu críticas entusiásticas de muita gente, o que o motivou a voltar a esta casa. Apresenta agora vários desenhos, com temas diversos, como já tinha feito, mas com um grande tema específico a coroar o conjunto: o ciclo do javali…

Os desenhos são todos a esferográfica, que é a técnica que prefere, e feitos principalmente a preto. A cor, quando aparece, é apenas à laia de apontamento: uma poça de sangue vermelho, um céu azul-escuro, uma luz amarela… Gosta da tinta preta porque se identifica com o desenho a escuro, mais dramático, quase como uma cicatriz sobre o papel branco.

Desenha invariavelmente à noite, em casa, e sempre a partir das 10. Nunca desenha de dia porque não tem vontade. A noite inspira-o mais. Trabalha numa mesa de vidro, na sala, com um candeeiro normal. Tem as canetas num cinzeiro grande. Não faz esboços, nem se inspira noutras imagens de outros autores. “Quando não sai, deito-os fora”.

Gosta de ver pintura de muitos artistas, de Picasso a Goya, mas não tem nenhuma preferência. Às vezes dá uma volta pela cidade, para ver umas exposições. Mas não tem essa rotina. Costuma mostrar os desenhos aos amigos, que gostam de ver. Continua a trabalhar na construção civil. É um grande artista à espera se ser descoberto…

Publicado por jmachado em dezembro 29, 2008 03:50 PM | TrackBack
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Afixado por: yahuppid em julho 17, 2009 11:03 AM
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