O Semanário Económico publicou no passado dia 17 uma peça sobre o valor das colecções de BD e, sobre a colecção de Bana e Costa (assinante do BDjornal e habitual frequentador das Tertúlias BD de Lisboa) fez o título: SEIS TONELADAS DE BANDA DESENHADA - 150.000 livros - valor de € 500.000,00.

Eis o Texto:
36 | Outlook | Sábado, 17.1.2009
ALMANAQUE
SEIS TONELADAS DE BANDA DESENHADA
No passado dia 10, Tintim fez 80 anos. Rui Bana e Costa, antigo director da Bolsa de Lisboa, é fã deste e de outros heróis de BD. Tem 150 mil livros, avaliados em 500 mil euros.
TEXTO ANTÓNIO SARMENTO / FOTOS PAULA NUNES
Quando precisou de mudar de casa Rui Bana e Costa, antigo Chief Information Officer (CIO) da Bolsa de Lisboa, contratou uma empresa especialista em carregar pianos. Bana e Costa não tem nenhum piano nem sabe tocar, mas os seus 150 mil livros de banda desenhada merecem ser tratados com o maior requinte. Afinal, podem ser um investimento mais vantajoso do que comprar e vender acções. "Os livros de BD têm um potencial de valorização que pode chegar aos mil por cento", explica o ex-director informático da Bolsa. No mercado de capitais esta rendibilidade é muito rara.
A camioneta de mudanças foi obrigada a fazer duas viagens para transportar todos os livros. Foi assim que descobriu o peso da colecção, com seis toneladas. "A capacidade máxima da carrinha era de cinco mil quilos e não se conseguiu levar tudo só de uma vez", lembra. Os funcionários da empresa estiveram desde manhã até à noite a descarregar os exemplares. Pararam apenas para almoçar. "Estavam muito admirados e cansados. Nunca tinham visto nada assim", explica Rui Bana e Costa.
INVESTIMENTO SUPERIOR À BOLSA
A BD deste coleccionador é bastante cobiçada no mercado de livros antigos. Obras raras portuguesas que nasceram a partir da década de 30 como "O Mosquito", "O Gafanhoto", ou o "Mickey Português" valem muito dinheiro. Comprados por meia dúzia de euros podem chegar a valer mais de cinco mil. Recentemente, um empresário de Coimbra e professor universitário ofereceu-lhe 150 mil euros por uma parte da colecção. Bana e Costa não vendeu. Por enquanto, limita-se a negociar na Internet alguns exemplares que já não cabem na sala da casa onde vive, perto de Sesimbra. "No total os meus livros de banda desenhada estão avaliados em cerca de 500 mil euros", diz o antigo director, de 61 anos.
Uma colecção tão rica começou a ser construída ainda na infância. Aproveitava o dinheiro da mesada para comprar as revistas de BD. O avô também lhe ofereceu muitas e, mais tarde, acabou por herdar de um primo mais uma série de números. No entanto, foi a partir de 1974 que ganhou o gosto pela banda desenhada estrangeira e aumentou consideravelmente a colecção. Rui trabalhava na empresa Unisys e tinha de se deslocar muitas vezes a Paris e a Nova Iorque. O tempo livre, depois das reuniões, era aproveitado para ir às compras. Só que em vez de se deslocar as lojas da moda, como quase todos os visitantes, ele percorria os alfarrabistas da cidade.
Em alguns era conhecido como o Pavarotti português e noutros como o Demis Roussos. A barba longa torna-o parecido com estes cantores. E a simpatia com que o recebiam também era digna de estrela. O alfarrabista fazia-lhe sempre uma grande festa. "Comprava uma média de 300 livros por mês. Cheguei a criar com um amigo uma empresa de importação para pagar menos despesas e a seguir montámos uma livraria em Lisboa", conta. Devido à falta de disponibilidade para se dedicar a 100 por cento a esta actividade, o negócio acabaria por fechar as portas.
A selecção das obras nos alfarrabistas de Paris e de Nova Iorque demorava entre três a quatro horas. Depois, vinha o problema do transporte. Saia da loja com um saco de rodinhas, mas como viajava em classe executiva não pagava excesso de bagagem no aeroporto. Por vezes, também pedia a outros passageiros, com menos carga, para lhe transportarem alguns livros. "Se fosse hoje as pessoas tinham medo, mas naquela altura não se importavam", afirma.
Na viagem de regresso entretinha-se a ler as aventuras de Spirou, Pilote, Heavy Metal e, claro, Tintin. Aliás, sempre que fala desta personagem criada pelo belga Hergé, Rui Bana e Costa lembra-se do tempo passado na tropa. Nos anos 60, cumpriu serviço militar no Norte de Angola e a mulher enviava-lhe regularmente a edição portuguesa do Tintim. "Eu era o primeiro a ler. Depois, havia uma luta constante entre o sargento e os cabos da minha companhia. Quem estava numa posição superior na hierarquia militar acabava sempre por ler primeiro", recorda. Ainda guarda religiosamente estes números, entre os quais o 'Tintim no Congo' (vale 500 euros).
Na semana passada, a 10 de Janeiro, Tintim celebrou 80 anos. Em 1928, começou a ser publicada no suplemento infantil "Petit Vingtième" a primeira aventura daquele que se tornou um dos maiores ícones da BD. Ao mesmo tempo, a editora de "Astérix", Éditions Albert-René, anunciou que as histórias continuarão após a morte de Albert Uderzo, com 81 anos. O outro autor, René Goscinny, morreu em 1977.
OS HERÓIS MAIS VALIOSOS
O valor de uma revista ou de um álbum de banda desenhada pode ser consultado através de um guia de preços americano, actualizado anualmente. Um dos livros mais valiosos é um 'comic book' do "Super-Homem", de 1938, com 24 páginas: 575 mil dólares (436 mil euros). O "Detective Comic" número 27 onde apareceu pela primeira vez a personagem Batman está avaliado em 475 mil dólares (360 mil euros). Já Tintim 'País dos Sovietes', edição de 1930, vale 18 mil euros. A diferença de preços tem uma explicação. "O mercado franco-belga não tem a mesma pujança do americano. Hoje, há muito poucas pessoas interessadas em ler em francês", diz Rui Bana e Costa.
Carlos Gonçalves é outro especialista de BD. Tem uma colecção com mais de 50 mil revistas e livros. "Foi sempre um encanto para mim ver as páginas a cores, cada vinheta cheia de vida e de pormenores, como se de um quadro se tratasse, era uma alegria plena. Depois juntavam-se as aventuras, a emoção, o desenrolar da acção, a beleza das personagens, a qualidade dos enredos", diz Carlos Gonçalves.
Para melhorar a qualidade da colecção, Carlos perde horas à procura dos melhores exemplares entre os alfarrabistas, os vendedores da feira da ladra e alguns particulares. "Completo as minhas colecções, as dos meus amigos e depois vendo o material remanescente", explica.
Um dos melhores negócios foi conseguido com a compra de "O Diabrete". Gastou um escudo por cada número, num total de 887 escudos, (pouco mais de quatro euros). Actualmente, a colecção vale cerca de 2500 euros", diz o coleccionador.
"A qualidade, a antiguidade e a raridade são os pontos mais importantes para a valorização de uma BD. Há ainda outro ponto, que se prende com o facto de existirem gerações com uma admiração especial por um herói ou um autor específico", explica Geraldes Lino, sócio fundador do clube português de banda desenhada e organizador da tertúlia de BD em Lisboa.
Actualmente, o mercado do coleccionismo é procurado por clientes com uma idade superior a 40 anos. São sobretudo professores, gestores e reformados. "Os jovens interessam-se pela manga japonesa e pelos comics americanos", diz Geraldes Lino. Os mais novos não sentem a nostalgia que um livro de BD pode criar. "Gosto de folhear, de recordar os tempos em que era miúdo", remata Rui Bana e Costa.
DICAS PARA COLECCIONADORES
INVESTIR NOS EUA
Comprar 'comic books' americanos tem mais potencial de valorização do que o mercado belga e francês. Por exemplo, uma edição do Super-homem dos anos 30 vale mais de 400 mil euros. Uma do Tintim não chega aos 20 mil.
ALFARRABISTAS
Ponto de paragem obrigatório para quem quer investir no coleccionismo. Uma grande parte das relíquias de BD passa por eles. Os clientes regulares têm mais hipóteses de conseguir os exemplares raros.
ANÚNCIOS
Tanto para comprar como para vender a Internet e os jornais são óptimos meios para fazer negócio. O site Ebay é um dos melhores para adquirir exemplares valiosos e entrar em contacto com outros clientes. Também há quem tenha feito bons negócios na feira da ladra.
INFORMAÇÃO
Frequente as tertúlias de banda desenhada e outros encontros para fãs organizados pela Bedeteca. É uma excelente oportunidade para conhecer outros coleccionadores e, quem sabe,
fazer um bom negócio.
PROTECÇÃO
A melhor solução para guardar as revistas é colocá-las em sacos de plástico porosos, que também servem para transportar o pão ou os legumes. A encadernação é outro dos métodos de conservação. Um desumidificador também é uma boa aposta, quando o tempo está húmido.
(EM CAIXA)
GUILHERME D' OLIVEIRA MARTINS, presidente do Tribunal de Contas
Quando começou a coleccionar livros de BD?
O meu interesse vem da infância e situo os começos à volta de 1958 e 1959, altura em que comecei a ler o "Cavaleiro Andante" e a consultar uma velha colecção de "Mundo de Aventuras".
Tem quantas revistas ou álbuns?
É difícil responder uma vez que partilho neste momento a colecção com o meu filho. Comparando com os meus 14 mil livros posso falar de cerca de mil exemplares entre revistas e álbuns de BD.
Quais são as suas personagens favoritas?
Comecemos pelos autores portugueses: Stuart de Carvalhaes, Carlos Botelho, Eduardo Teixeira Coelho e Fernando Bento. Uma obra-prima: "Beau Geste" de Fernando Bento. Só falo de desaparecidos. Gosto muito de uma plêiade de jovens portugueses contemporâneos. Quanto a heróis internacionais refiro: Príncipe Valente, Tintim, Corto Maltese, Astérix, Blake e Mortimer e tantos e tantos outros...
Lê frequentemente livros de BD?
Leio livros de Banda Desenhada, em todas as circunstâncias. Para um viciado da leitura, as histórias de quadradinhos, quando têm qualidade, não têm momentos especiais. Daí que o Plano Nacional de Leitura aconselhe - e muito bem - livros de BD.
O que é que um livro de BD tem, para que ainda hoje muitos adultos se interessem por eles? Nostalgia, caracterização das personagens ou a expectativa do enredo?
Há muitos tipos de BD. Devo dizer que me tenho interessado sobretudo pelas histórias para a juventude - em especial por tudo o que se relaciona com a "linha clara" de origem belga, que tem muito a ver com a Pop-Art, como foi claramente demonstrado por Andy Warhol e Roy Lichtenstein. A nostalgia liga-se ao talento e ao enredo...
Estou verdadeiramente aBANAnado. Nunca pensei que a BD pudesse ser um negócio com estes números, apesar de consciente do alto valor das raridades.
A minha riqueza é uma: também vivi com fervor as décadas de voraz consumidor de BD.
Hoje procuro criar alguma emoção aos meus alunos de escrita criativa. Apresentar-lhes o Corto Maltese ou o Cavaleiro Ardente é algo que também me emociona.
Ainda ontem, no curso de Escrita Criativa Policial, a partir de Dennis McShade, citei Torpedo 1936, Tornado e Spaghetti Brothers.
Afixado por: Luís Graça em janeiro 27, 2009 07:02 AM