
Hoje foi dia (entre muitas outras coisas - tal como no Festival da Amadora, não é? - como podem ver no site do Festival - hora a hora) de Connexions Coréennes
Une dizaine d’auteurs en provenance directe de Séoul, pour découvrir au Musée du Papier une maison d’édition coréenne pas comme les autres : Sai Comics. Présentation.

Mas, mais importante em termos de informação, foi o texto de Carlos Pessoa no C2 do Público de hoje. A referência ao relatório anual da ACBD (Associação de Jornalistas e Críticos de BD em França), que vai ser um dos temas em destaque do BDjornal #25 - previsto para Março - leva-nos inevitavelmente a fazer miseráveis comparações com o que se passa no triste reinozeco da BD em Portugal. Leiam com atenção e... reparem no nosso sublinhado:



P2 • Quinta-feira 29 Janeiro 2009
ANGOULÊME – A CRISE NÃO QUER NADA COM OS HERÓIS DE PAPEL
Há 13 anos que o mercado francófono de banda desenhada não pára
de crescer. Mais títulos, mais traduções e o apetite pela Internet,
tudo isto coroado pelo aumento das vendas. São boas notícias
para o Festival de Angoulême, que começa hoje.
Por Carlos Pessoa
Quando um álbum de banda desenhada tem uma tiragem de 1,83 milhões de exemplares parece uma coisa de outro mundo. Em França, não é: graças a esses números, Titeuf, do suíço Zep, foi o campeão de vendas de 2008 do mercado franco-belga, deixando a concorrência directa a,grande distância, e ainda assim com tiragens enormes. O último Blake e Mortimer (Juillard-Sente) tirou 600 mil exemplares, seguindo-se Lucky Luke, de Achdé-Gerra (535 mil), e Largo Winch, de Francq-Van Hamme (490 mil).
Oque estes números indiciam é que existe uma vitalidade própria do segmento editorial de banda desenhada francófona, confirmada pelo habitual relatório anual de Gilles Ratier, secretário geral da Associação de Críticos e Jornalistas de Banda Desenhada (ACBD), sobre o sector.
Pelo décimo terceiro ano consecutivo, a produção voltou a aumentar, com 4.746 livros publicados, dos quais 3.592 são novidades. Este valor ultrapassa em 10,04 por cento o resultado registado em 2007. A maioria dos títulos novos são franco-belgas (1.547), mas as séries asiáticas (sobretudo japonesas e coreanas) não ficam muito longe (1.453).
Este desempenho era esperado? "Confesso que fiquei um pouco surpreendido porque, em Outubro, pensava que estávamos a caminho de uma estabilização e que, a haver progressão, seria muito limitada", admite Ratier ao P2.
O grosso do negócio está nas mãos de 15 grupos editoriais, que representam 70 por cento da produção. O primeiro lugar é da Média Participations (Dargaud, Kana, Le Lombard, Dupuis, Blake et Mortimer, Lucky Comics e outros), responsável pela publicação de 627 títulos, mas a vitalidade do sector pode ser medida pela existência de pelo menos 265 editores com títulos
publicados em 2008.
Quase uma centena de títulos teve tiragens superiores a 50 mil exemplares, o que lhes garante lugar destacado entre as obras mais vendidas de todo os géneros. As traduções também não estiveram mal, com 1.856 bandas desenhadas estrangeiras (mais 69 do que em 2007). A maior fatia é de origem asiática, sobretudo japonesas (1.288 mangás entre 1.411).
Outro sinal de dinamismo é dado pelo número de adaptações de obras literárias (154). Ou seja, a Nona Arte "continua a inspirar os outros meios de expressão", diz Gilles Ratier, que vê neste facto o sinal de que "a maioria dos editores continua a explorar novos territórios - ou nichos editoriais".
O relatório da ACBD fala de "consagração" e "mediatização" ao inventariar as 201 obras com mais de 20 anos que foram reeditadas no ano passado. Revela ainda que o número de autores francófonos de BD é cada vez. Maior – 1.495 publicaram um novo álbum, embora apenas 1.416 (eram 1.357 em 2007) vivam desta profissão, onde as mulheres continuam a ser uma pequena minoria (151). E como nem tudo é positivo, Ratier refere que apenas 71 revistas especializadas (eram 77 no ano anterior) continuavam em 2008 a publicar bandas desenhadas europeias. Os desafios para este segmento vêm da concorrência que lhe é feita pela Internet, traduzida na "gratuitidade [do meio] e nos novos desafios criativos".
Primeiro lugar de vendas
Em termos económicos, a evolução das vendas entre 2007 e 2008 foi de mais 3,5 por cento, disse ao P2 Fabrice Piault, chefe de redacção adjunto da revista Livres Hebdo: "É o sector editorial que mais progrediu em 2008, à frente do sector para a juventude (mais 3 por cento)". Excluindo as vendas on-line, o mercado de BD em França atingiu um volume de negócios de 319 milhões de euros, correspondentes a 33,6 milhões de exemplares vendidos.
Como explicar esta expansão continuada ao longo de mais de uma década? "É o medo de falhar o fenómeno da época", diz Gilles Ratier. "A Glénat esteve prestes a pôr fim à série Titeuf ao quarto álbum, quando é a partir daí que as vendas disparam."No princípio, Jean-Christophe Menu, responsável da editora L'Association, não queria publicar Persepolis e foi David B. quem impôs Marjane Satrapi... Os editores ficam perdidos e tentam contentar como podem todos os públicos. Essa é a explicação para esta edição superabundante que parte em todas as direcções e procura, desesperadamente, novos públicos... " - Didier Pasamonik, crítico de BD e chefe de redacção do site ActuaBD, explica o sucesso da BD "pela intensidade capitalística" do sector: "O proprietário de Média Participations, Vincent Montagne, faz parte da família Michelin. Por isso, tem os meios adequados às suas ambições. Aliás, esteve quase a comprar o grupo editorial Editis por um milhão de euros, negócio que acabou por ser feito pela Planeta".
Acrescenta ainda dois "fenómenos maiores": o sucesso no cinema e na televisão, nomeadamente das adaptações de bandas desenhadas francesas (Astérix, Lucky Luke, Titeuf, etc.); e o fenómeno das graphic-novels, que aumentou o número de pontos de venda nas livrarias. Yves Frémion, membro do colectivo que edita a revista Papiers Nickelés, põe o acento tónico no sistema existente: "Saem grandes quantidades de livros, o que implica adiantamentos por parte das livrarias, que permitem aos editores sobreviverem. É uma consequência do sistema: os livros são enviados automaticamente e facturados aos livreiros. Estes podem devolvê-los ao fim de alguns meses e serem reembolsados, mas é um adiantamento sobre os livros seguintes. Assim, os livreiros fazem de banqueiros dos editores, que têm todo o interesse em editar cada vez mais títulos".
Ponto culminante
Até onde pode ir este crescimento continuado é uma questão que divide os analistas. "Isto vai cair", responde Frémion. "Em 2009, já há pequenos editores a desaparecer, depois serão os médios e, finalmente, os grandes. Estes últimos investirão nas aquisições de concorrentes para tentar constituir grupos cada vez maiores. Mas quanto maiores, mais frágeis são, diz uma regra não escrita do capitalismo. Penso que o ponto culminante já passou e que os efeitos da crise bancária vão fazer-se sentir com força." Didier Pasamonik é mais optimista. "O boom pode ir longe se os editores franceses, seguindo o modelo das mangás e dos comics, sistematizarem a utilização das suas personagens em outros suportes jogos vídeo, cinema, televisão). O sucesso dos Estúdios Ankama (dez milhões de jogadores em linha), que publica bandas desenhadas, mostra que existe um grande potencial nessa solução".
Uma coisa é certa: de momento, em França, os produtos culturais não sofrem com a crise financeira, pois as vendas de livros, as entradas nas salas de cinema ou nos museus registaram em 2008 valores recorde.
No caso da BD, o seu momento de apoteose começa a desenhar-se hoje na pequena cidade de Angoulême (Sul de França), onde se inicia mais uma edição do 36º Festival lntemacional de BD.
Até ao próximo domingo, todos os olhos estarão postos neste gigantesco palco, onde milhares de consumidores vão disputar os autógrafos e as dedicatórias dos seus autores preferidos. Para os editores, é mais uma oportunidade de venda e afirmação das respectivas marcas.
Deixando de lado a dimensão comercial, os organizadores propõem este ano um programa de exposições que procura ser o espelho dos diversos gostos e interesses em jogo: dupla Dupuy e Berberian, autor japonês Shígeru Mizuki; heróis Boule et Bill (criação de Jean Roba, que faz 50 anos no final deste ano) e Lucien (criação de Frank Margerin); colectivas da BD flamenga contemporânea, BD coreana independente (Sai Comics) e BD sul-africana; e a exposição Teatro das Maravilhas, sobre a obra de três autores (Bruno Malorana, Jean-Luc Masbou e Turf) inspirados pelo teatro e o maravilhoso.
exodus...
Afixado por: teresa em janeiro 30, 2009 12:25 PM