março 09, 2009

RECORTES 30 - "WATCHMEN" - O FILME - TEXTOS DE PEDRO CLETO (Jornal de Notícias), Mário Freitas (Parq) e J.M. Lameiras (Diário As Beiras)

A propósito da estreia do filme WATCHMEN, preparámos um post com duas antevisões - Pedro Cleto no Jornal de Notícias de dia 5/03/09 - e Mário Freitas (da Kongpin Books) na revista PARQ e uma opinião sobre o filme, de João Miguel Lameiras (que já viu o filme) no Diário as Beiras, de dia 7.

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EM “WATCHMEN”, RICHARD NIXON, EM ALTA APÓS A VITÓRIA NA GUERRA DO VIETNAME, PERPETUA-SE NA PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS GRAÇAS À APROVAÇÃO DE UMA LEGISLAÇÃO ESPECIAL QUE POSSIBILITA A SUA RECANDIDATURA PARA ALÉM DE DOIS MANDATOS. SITUAÇÃO PRECISAMENTE ANÁLOGA À QUE SE VIVE AGORA NA VENEZUELA.

Mário Freitas

Editado em 1987, quando os últimos dias do Guerra-Fria se aproximavam, “Watchmen” marca a viragem definitiva na abordagem narrativa à BD de super-heróis, desmontando e desconstruindo todos os clichés e romantismos associados ao género, muitos deles vigentes desde a sua massificação a partir do final da década de 30. Desde a primeira vinheta, a obra suprema dos britânicos Alan Moore e Dave Gibbons marca indelevelmente um estilo: o Comediante morreu, e a sua imagem de marca, um crachá amarelo com um simples smiley, jaz ensanguentado numa sarjeta de uma rua de Nova Iorque. É o fim da inocência dos super-heróis. Em “Watchmen” os super-humanos envelhecem, têm falhas de carácter, dúvidas, depressões, caem em desgraça, matam e morrem.
Paradoxalmente, o impacto de “Watchmen” na BD americana foi tal que gerou uma pletora de cópias e imitações baratas - repletas de estilo, mas sem qualquer substância - que quase arruinaram a indústria durante a década seguinte.
A história transporta-nos a1985. Os Estados Unidos venceram a guerra do Vietname e Richard Nixon ainda é presidente. Dr.Manhattan, o super-herói quântico supremo, é a pedra basilar do poderio militar americano que, no auge da Guerra-Fria, mantém o eterno inimigo russo em constante cheque. Porém, os ponteiros do relógio do Juízo Final estão fixados em permanência nas 5 para a meia-noite. Primeiro, os super-humanos foram ilegalizados; agora, começam a ser suprimidos. Num mundo mergulhado num estado de aparente letargia, a morte do Comediante poderá ser o gatilho que colocará todo o sistema instituído e, em última instância, a própria humanidade, em causa. E caberá aos regressados e restantes watchmen (guardiões) evitá-lo a todo o custo, mesmo que o preço seja a sua própria humanidade. Ou a sua alma.
Em termos visuais, “Watchmen” assenta apropriadamente numa estrutura básica de 9 vinhetas por páginas, numa grelha em registo clássico que confere uma rigidez imprescindível ao tom narrativo, denso e quase claustrofóbico. A solidez artística de Dave
Gibbons e a sua atenção ao mais ínfimo dos detalhes são perfeitamente complementados pela palete de John Higgins. Este fugiu deliberadamente às cores primárias usualmente associadas ao estilo, optando antes por tons secundários que poucos à partida imaginariam resultar, como castanhos, roxos, acres, rosas e laranjas.
Outra das experiências mais curiosas no livro é a inclusão de narrativas paralelas, em clara analogia com a trama principal. Num mundo em que os super-heróis fazem parte do quotidiano, histórias sobre o tema não exercem qualquer apelo e os leitores viram-se sobretudo para, imagine-se, comics de piratas, habilmente recriados e incluídos por Moore e Gibbons no contexto da própria narrativa centraI. Adicionalmente, no final de cada capítulo, Moore faz uso de apêndices em texto que enriquecem a experiência de leitura, conferindo toda uma envolvência histórica que dá à obra um carácter quase real, através de trechos de livros ou recortes de jornais imaginários das épocas que antecedem o presente de “Watchmen”.
Dentro da contextualização histórica, os paralelismos políticos assumem particular significado e é curioso verificar como tanta vez a realidade imita, tardiamente, a ficção, revelando bem à sociedade a capacidade visionária de Alan Moore, o fleumático inglês que se tornou no mais premiado argumentista de sempre da BD... americana. Em “Watchmen”, Richard Nixon, em alta após a vitória na guerra do Vietname, perpetua-se na presidência dos Estados Unidos graças à aprovação de uma legislação especial que possibilita a sua recandidatura para além de dois mandatos. Situação precisamente análoga à que se vive agora na Venezuela com a tentativa bem sucedida de Hugo Chávez em se perpetuar no poder via reeleições sucessivas supostamente democráticas.
Aliás, a forma como Moore reescreve a verdadeira história dos Estados Unidos chega a assumir laivos de uma malvadez subtil. Qualquer leitor mais distraído poderá passar ao lado da breve menção ao assassinato de Woodward e Bernstein, os dois jornalistas do Washington Post que investigaram e tornaram público a caso Watergate, que viria a determinar a renúncia de Nixon a meio do seu segundo mandato. Na realidade alternativa de “Watchmen”, a supressão estratégica dos dois repórteres implica o abafamento do mediático escândalo, salvaguardando Nixon de quaisquer consequências. Porém, no mundo reinventado por Moore, o Nixon de 1985 já não é o homem firme e determinado de outrora, antes parecendo uma bizarra fusão entre a versão pré-alzheimer do presidente americano Ronald Reagan e a "Dama de Ferro” britânica dos anos 80, a então primeiro-ministro Margaret Thatcher - talvez as duas figuras mais odiadas pelo liberalismo e pela esquerda britânicos da época, que Alan Moore tão bem personifica.
Aliás, esta quase militância anti-sistema de Moore tem-no colocado em permanente confronto quer com as grandes editoras americanos, quer com os estúdios de Hollywood que têm adaptado as suas obras ao cinema, com resultados no mínimo pouco brilhantes. Depois do inenarrável “Liga dos Cavalheiros Extraordinários”, do incipiente “From Hell – A Verdadeira História de Jack, O Estripador” e do razoável, mas adulterado, “V for Vendetta”, o realizador Zack Snyder, que adaptou “300” de Frank Miller ao grande ecrã, foi o escolhido para dirigir a mais ambiciosa adaptação de sempre, com um orçamento que parece acompanhar as enormes expectativas. Depois de quase 18 anos de disputas legais entre a Warner e a Fox pelos direitos da adaptação, e uma derradeira investida da segunda que quase liquidou a estreia para a data prevista, a margem para erro é praticamente nula.
A versão cinematográfica de “300” era fria e plástica, demasiadamente digital para recriar a brutalidade das batalhas entre Espartanos e Persas. Mas “Watchmen”, além de um orçamento largamente superior, conta com a eloquência cínica e os diálogos fluidos de Alan Moore que contrastam bem com o discurso “duro de rins” e ostensivamente estereotipado de Miller. E isto poderá servir melhor a transposição de “Watchmen” para o cinema. Os dois trailers já lançados prometem: a verosimilhança de guarda-roupas, cenários e situações parecem indiciar uma adaptação respeitosa do livro. Mas o sucesso, pelo menos crítico, do filme, estará na sua capacidade de transmitir as subtilezas narrativas que transformaram “Watchmen” na obra de referência que é hoje. Recriar as montanhas de Morte ou a fortaleza polar de Ozymandias, o “Homem mais inteligente do mundo” não será tarefa difícil. Mas até no cinema, “Deus encontra-se nos detalhes”, mesmo que, neste caso, Deus se chame afinal Doutor Manhattan.

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WATCHMEN, DA BD PARA O CINEMA

João Miguel Lameiras – 07/Março/2009

Vinte e três anos após a publicação da Banda Desenhada original, “Watchmen”, a BD de culto de Alan Moore e Dave Gibbons que muitos, incluíndo o próprio Moore, consideravam impossível de filmar, chega finalmente aos cinemas pela mão de Zack Znyder que, depois de “300” de Frank Miller, volta a adaptar uma BD ao cinema.

Publicada originalmente em 1986 como uma mini-série de 12 números, “Watchmen”, a par com “The Dark Knight Returns” de Frank Miller e “Maus”, de Art Spiegelman, também de 1986, veio mudar a forma como a Banda Desenhada era encarada pelo público americano, provando que é possível contar histórias adultas e complexas através da BD. No caso, Moore reflecte sobre as consequências da existência de super-heróis no mundo real, numa história em que o assassinato de um antigo super-herói leva um dos seus antigos colegas a investigar as causas dessa morte, para concluir que não passavam de peões de uma conspiração muito mais vasta.

Passada em 1985, mas numa realidade paralela, em que os EUA tinham vencido a guerra do Vietname, graças aos super-heróis e em que Nixon continua no poder e o confronto nuclear com a URSS está eminente, “Watchmen” é uma história extremamente complexa e cheia de informação, construída com a precisão de um mecanismo de relojoaria, o que dificultava, e muito, uma adaptação cinematográfica.
Apesar disso, sucederam-se as tentativas falhadas ao longo dos últimos vinte anos de levar o livro ao cinema. Finalmente, seria Zack Znyder, escudado no grande sucesso de “300” a concretizar o sonho de muitos fãs (e o pesadelo de Alan Moore que, de relações cortadas com a DC, a editora do livro, e com Hollywood, não quer nem ouvir falar do filme) de levar “Watchmen” ao grande ecrã.
E o resultado é um filme denso e visualmente espectacular, que consegue transmitir muita informação de forma eficaz (veja-se o notável genérico, ao som de “The Times are a Changing” de Bob Dylan) bastante fiel à BD original e que faz justiça ao livro de Moore e Gibbons, de que recria inúmeras imagens e uma grande quantidade de diálogos, com a principal alteração em relação à BD, em termos do final - com a criatura espacial lovecraftiana que no livro destroi Nova Iorque a ser substituida, com vantagem, por uma explosão nuclear atribuída ao Dr. Manhattan - a funcionar bastante bem.

Com um excelente leque de actores pouco conhecidos, com destaque para Jackie Earle Haley que faz um notável Rorschach e para o espectacular Dr. Manhattan digital, os únicos problemas em termos de casting são Matthew Goode como Ozymandias (o papel exigia um actor com outra presença) e a caracterização do actor que faz de Nixon, que parece quase um boneco da “Contra Informação”.

Zack Zinyder disse que já ficaria contente se o seu filme funcionasse como um trailler de 2h30m que levasse as pessoas a comprar o livro de Moore e Gibbons e, se esse objectivo já foi amplamente cumprido, não foi o único.
Mesmo que o director’cut a sair em DVD no Verão, com mais meia hora de filme, a animação de “Tales of the Black Freighter”, (a história de piratas que um dos personagens lê no livro e que funciona como contraponto e comentário à acção principal) e o documentário “Under the Hood”, que conta a origem dos Minutemen, vá permitir uma experiência ainda mais próxima da BD original, tal como chegou às salas de cinema, o “Watchmen” de Zack Znyder não desilude os fãs e confirma ao grande público algo que o “Dark Knight” de Nolan já tinha deixado perceber: que os filmes de super-heróis não precisam de ser um mero divertimento inconsequente.

(“Watchmen - Os Guardiões”, de Zack Snyder,
com Carla Gugino, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley
e Patrick Wilson, Warner Bros/ Legendary Pictures.)

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Carla Gugino e Patrick Wilson

Publicado por jmachado em março 9, 2009 07:05 PM | TrackBack
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