Para início de apresentação de recortes, aí vai um texto, a abrir, que não é um recorte: Manuel Caldas, a quem em tempos chamei “o fanzineiro louco da Póvoa”, por causa do seu fanzine Nemo, continua a editar BD, para gáudio de muita gente (eu incluído). Enviou-me o texto que abaixo transcrevo – um deles sobre o primeiro Tarzan desenhado pelo Hal Foster. Depois temos alguns textos de divulgação de Cristóvão Gomes no jornal “i”, enviados por José Manuel Pinto, juntamente com os recortes de textos de Pedro Cleto que também se seguem – um sobre a adaptação de Aquilino por Artur Correia, outros sobre os aniversários da Mafalda e do Asterix, e um outro texto de Eurico de Barros sobre o Sandokan do Hugo Pratt, etc… há muita coisa para ler.



A todos os eventuais interessados e à classe em vias de extinção dos que ainda compram e lêem livros de banda desenhada se faz saber que Manuel Caldas já tem impressos dois novos livros: "Tarzan dos Macacos" e "Ferd'nand Retorna"
TARZAN DOS MACACOS
72 páginas, 23 x 21,5 cm, preto e branco, brochado, 12.50 Euros.
A primeira banda desenhada realista: a condensação da novela de Edgar Rice Burroughs ilustrada por Harold R. Foster.
No seu 80º aniversário, a obra que revelou o criador de "Príncipe Valente" é finalmente publicada numa edição que a apresenta pela primeira vez em todo o mundo completamente restaurada.
FERD'NAND RETORNA
120 páginas, 23 x 20,5 cm, preto e branco, brochado, 12.50 Euros.
Todas as 313 tiras diárias de 1938, o segundo ano da universal série pantomímica de Mik. A primeira vez em todo o mundo que tal material se recolhe em livro na sua integralidade.
Ainda não se sabe a data em que estes livros serão distribuídos pelas livrarias, mas podem desde já ser adquiridos através do editor, bastando para tal fazer uma transferência para o NIB 003506660003845690063 ou enviando um cheque ou vale postal para
Manuel Caldas
Apartado 222
4490-909 Póvoa de Varzim
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“JORNAL DE NOTÍCIAS” DE 22/09/2009.
ARTUR CORREIA LEVA AQUILINO PARA A BD
Chama-se Artur Correia, nasceu em Lisboa, a 20 de Abril de 1932, tem uma vida dedicada a banda-desenhada e ao cinema de animação e lançou recentemente o "Romance da raposa;', baseado na obra de Aquilino Ribeiro.
Iniciou a carreira "aos 14anos, no 'Papagaio', após o curso na 'Machado de Castro"', mas desde "os sete que copiava tudo o que era bonecada, influenciado pelo 'Mosquito', que era mentor e substituía o cinema enquanto influenciador da nossa fantasia". No site que o filho lhe dedicou, evoca que, "na altura, recebia 7$50por ilustração e 20 escudos por página ou capa" e confessa que era um dos que "alargavam os desenhos das histórias do Tim-Tim (era assim que então se escrevia), transformando uma prancha única numa dupla, para ocupar a página central". Autodidacta, com formação"baseada apenas no gosto pelo desenho, feita no contacto com mestres da BD e ilustradores", conseguiu, através da banda desenhada - "de que outra maneira poderia comunicar?"-, suprir a necessidade de transmitir"pensamentos, humores, alegria, etc.". A opção pelo traço humorístico e pelo tom infanto-juvenil surgiu da sua preferência por obras nesse estilo, "com que alimentava aquela parte de criança que vive em nós". É com ele que chega melhor às crianças, que adora, e revela que, ao criar BD, se sente "como urna criança a contar histórias a outras crianças". O que fez no "Camarada", "Cavaleiro Andante", "Fagulha" ou "Pisca-Pisca", em histórias como "As Aventuras de Dom João e Cebolinha", "O Neto de Robin dos Bosques" ou "Madrepérola em vaso". Ou, mais recentemente, nos álbuns "História Alegre de Portugal" ou "Super-Heróis da História de Portugal".
Com uma passagem de quase 30 anos (1965-1994) pelo desenho animado, com estúdio próprio, o Topefilme, que foi forçado a fechar "por falta de encomendas", reconhece que a animação o "influenciou enormemente na forma de fazer BD", pois nela descobriu "as linhas de força, 'plongés', multiplanos, etc.". Aliás, o recém-editado livro, "Romance da raposa", tem origem na série de 13fl1mes que realizou no final da década de 90, a partir do romance de Aquilino Ribeiro, e as personagens agora desenhadas "baseiam-se nas que foram criadas para 0 desenho animado" por si e por Ricardo Neto. É "uma obra fresquinha", diz, cujas mais de 200 páginas lhe tomaram "um ano de trabalho gostoso, em que lutou afincadamente para a execução dessa obra de mestre Aquilino".
FCLETOEPINA

JORNAL “DIÁRO DE NOTÍCIAS” DE 08/10/2009.
ASTÉRIX, MEIO SÉCULO A BATER NOS ROMANOS
Celebração. Várias iniciativas estão preparadas para as comemorações do aniversário do gaulês
Os 50 anos de Astérix, Obélix e seus amigos gauleses vão ser assinalados com um conjunto de iniciativas em vários países, incluindo Portugal. Para hoje está marcada uma conferência de imprensa, em Paris, com Albert Uderzo, desenhador e criador, com René Goscinny, do personagem Astérix. A Uderzo juntar-se-ão Anne Goscinny, filha do já desaparecido co-autor da banda desenhada centrada na irredutível aldeia gaulesa que continua eternamente a resistir ao domínio romano.
Alguns dias depois, a 22 de Outubro, em 18 países em simultâneo, incluindo Portugal, é lançado um novo álbum com pranchas e textos inéditos assinados pelos dois criadores. O título da obra ainda está no segredo dos deuses. Astérix estreou-se em Portugal em 1961, dois anos após a sua primeira publicação em França, o seu país de origem.

JORNAL “DIÁRIO DE NOTÍCIAS” DE 25/09/2009.
O CAPITÃO BLAKE E O AMIGO MORTIMER ESTÃO DE REGRESSO EM NOVEMBRO
Além das aventuras de 'Blake&Mortimer', ASA prepara outros lançamentos, como o do irredutível 'Astérix'
A ASA prepara-se em para uma nova temporada em grande na nova desenhada. Para isso, recorre a pesos-pesados: Blake&Mortimer, Os Passageiros do Vento e Astérix. Clássicos da BD que se chegam aos leitores portugueses entre Outubro e Novembro.
De acordo com Maria José Pereira, responsável na ASA pela secção de banda desenhada, as aventuras do Capitão Blake e do amigo Mortimer, um clássico da banda desenhada criado em 1946, chegam a Portugal a 20 de Novembro, o mesmo dia em que são publicadas em França e na Bélgica.
Aliás, ontem já se mostraram ao público francês nas páginas do jornal Le Figaro, que pré-publicou cinco pranchas. O álbum chama-se "A Maldição dos Trinta Denários" ("La Malediction des trente deniers", no original). O interesse nas histórias do capitão e do seu amigo é sustentado pela procura: desde a sua criação, já foram vendidos mais de 20 milhões de livros.
Ainda antes, chegam "Os Passageiros do Vento", de François Bourgeon, que marcou a "rentrée" editorial em França há poucos dias com "La Petite fiIle Bois-Caiman". O primeiro volume é lançado a 7 de Outubro, juntamente com o jornal Público, o segundo tomo de "A Menina de Bois Caiman" (titulo por cã) entra no mercado português (e francês) em Janeiro de 2010.

“JORNAL DE NOTÍCIAS” DE 29/09/2009.
BANDA DESENHADA
MAFALDA CELEBRA HOJE 45.º ANIVERSÁRIO
Mafalda, a personagem de banda desenhada que o argentino Quino idealizou, transformou-se numa das mais divertidas comentadoras políticas da actualidade mundial nos anos 1960170. Celebra hoje 45 anos.
De traços simples, cabelo negro farto e muito opinativa, Mafalda surgiu pela primeira vez a 29 de Setembro de 1964 nas páginas do semanário argentino "Primera Plana". Quino, então com 32 anos, nunca adivinharia o sucesso daquelas tiras humorísticas.
Joaquin Lavado (Quino) imaginou Mafalda para um anúncio publicitário a uma marca de electrodomésticos, no qual lhe pediram que desenhasse a história de uma família típica da classe média.
A banda desenhada não chegou a ser publicada, mas Quino recuperou a personagem Mafalda quando o convidaram para publicar no "Primera Plana", na altura um jornal que procurava fazer uma reflexão crítica da actualidade argentina e internacional. À primeira vista, Mafalda podia ser uma menina de seis anos, reguila, desafiadora e descarada, mas depressa se percebeu que da sua boca, dos balões que Quino preenchia, saiam comentários mordazes e pertinentes sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina.
Era a Mafalda, a contestatária e insatisfeita, "uma heroína zangada que recusa o mundo tal como ele é", descreveu Umberto Eco em 1969, num prefácio a um dos álbuns que Quino dedicou à personagem.
A par da atitude de adulto mas com o desarmante discurso de uma criança, Mafalda tinha essa mesma condição de menina, que detestava sopa, adorava os Beatles, não compreendia a guerra no Vietname e tinha monólogos preocupados em frente a um globo terrestre.

O ‘SANDOKAN’ INÉDITO DE HUGO PRATT
BD. Em 1969, Hugo Pratt e Mino Milani deixaram incompleta a adaptação das aventuras de 'Sandokan' para o suplemento juvenil do 'Corriere della Sera'. O álbum saiu agora, 40 anos mais tarde.
Eurico de Barros
É um título de interesse histórico e um acontecimento editorial na área da banda desenhada: a publicação de Sandokan-Le Tigre de la Malaisie, deixado incompleto por Hugo Pratt (1927 -1995), e depois esquecido durante décadas numa pasta da empresa que gere a obra do autor.
Tudo começou em 1969, dois anos após Pratt ter publicado o primeiro álbum de Corto Maltese, A Balada do Mar Salgado. O editor do Corriere dei Piccoli, o suplemento juvenil e de banda desenhada do diário Corriere delIa Sera, encomendou ao desenhador e ao argumentista Mino Milani, a adaptação de duas aventuras do Sandokan de Emílio Salgari.
Esta encomenda coincidiu com o inicio da afirmação da personagem de Corto Maltese, e por isso Pratt começou a atrasar a entrega das pranchas de Sandokan, absorvido que estava com o seu marinheiro errante e o sucesso que começava a ter.
"Mas não se podia esperar, tratava-se de um semanário e havia uma necessidade contínua de material", recordou o escritor, desenhador e argumentista Alfredo Castelli, grande amigo de Hugo Pratt, numa entrevista dada recentemente ao Corriere.
Incompletas e esquecidas
E assim, Milani e Hugo Pratt acabaram por deixar a encomenda por satisfazer, e as pranchas das duas histórias de Sandokan incompletas, ficaram esquecidas numa pasta, algures nos arquivos da sociedade Cong SA, que detém os direitos da obra do criador de Sargento Kirk e de Os Escorpiões do Deserto. Foi lá que Castelli as acabou por encontrar muitos anos depois (64 no total), respondendo finalmente a uma pergunta que o seu falecido amigo lhe punha de vez em quando, em geral durante os longos almoços e jantares que faziam em restaurantes de Milão: "Mas quem terá as pranchas do Sandokan?".
Após ter sido editado na Itália natal de Hugo Pratt em Maio, pela Rizzoli Lizard, coube agora à Casterman publicar a versão francesa da obra inacabada, com o título Sandokan - Le Tigre de Malaisie, já disponível nas FNAC portuguesas.
O DN não conseguiu apurar se alguma editora portuguesa está interessada, ou a negociar a compra dos direitos deste álbum póstumo de Hugo Pratt.

JORNAL “I” DE 02/10/2009.
ESPECIALISTA DE BD
Cristovão Gomes
Fred: No Alfabeto
É A IDEIA da folha em branco que funda verdadeiramente a BD. E são as possibilidades de a preencher que a distinguem das outras formas de expressão artística. Coube a Fred Othon Aristidès mostrar que uma história desenhada não tem de se deter na realidade empírica. Nascido em 1931em Paris, iniciou-se na BD colaborando com a revista "Zero" em 1954. Em 1960 fundava com Georges Bernier e Cavannas a revista satírica "Hara Kiri", que levava a inscrição "Journal bête et méchant". Nela se promovia um fortíssimo ataque a todas as instituições estabelecidas. No dia da morte do general de Gaulle, as suas parangonas anunciavam: «Baile trágico em Colombey: um morto». A censura francesa actuou, proibiu a publicidade da revista e a sua venda a menores. Em resposta, os seus criadores alteraram-lhe o título para "Charlie Hebdo". Charlie, como De Gaulle. Mas foi com a criação de "Philemon", em 1965, que Fred se distinguiu dos demais.
O nome do personagem alude ao poeta e dramaturgo ateniense da comédia nova, mas as histórias são mais próximas de Lewis Carrol. Nelas Fred explora a nossa noção de realidade física e desafia os seus limites, num registo próximo do deliria onírico. O tom surreal da série acompanhado pelo desenho caricatural formam um conjunto estranho e fascinante. A carreira de Fred não se resume a "Philemon"; colaborou com Mézières, Rubuc ou Alexis, criou outros personagens, recebeu o grande premio de Angoulême em 1980. Mas nunca, como em “Philemon”, soube preencher tão bem um espaço vazio.

JORNAL “I” DE 25/09/2009.
ESPECIALISTA DE BD
Cristovão Gomes
Muñoz: a preto e branco
JOSÉ Muñoz nasceu em 1942,em Buenos Aires. Aos 12 anos já tinha aprendido a esculpir e a pintar com o seu mestre, Humberto Cerantonio. Sempre que podiam fugiam os dois para os subúrbios de Buenos Aires, onde apresentavam espectáculos de marionetas.
Por essa altura a Argentina estava cheia de revistas de BD. Produzidas a custo baixo, era nelas que os operários se perdiam durante as longas viagens de autocarro que os levavam até às grandes cidades.
Cesare Civita, um editor italiano que por lá se encontrava, contratou então uma serie de autores de BD na Europa, entre eles Hugo Pratt. Muñoz sucumbiu ao encanto daquelas histórias, contadas em preto e branco num papel de má qualidade. E aos 15 anos estava inscrito na Escola das Artes, assistindo a aulas de Pratt e de Alberto Breccia.
Acabaria por colaborar mesmo com Pratt em Ernie Pike. Em 1972, farto da ditadura militar, resolveu fugir para a Europa. Chegou primeiro a Inglaterra mas só em Espanha se sentiu em casa. Foi lá que encontrou Carlos Sampayo, argentino como ele. Formaram uma amizade inquebrantável e assim nasceram as histórias de Alack Sinner, desenhadas por Muñoz, escritas por Sampayo. A escrita crua de Sampayo casa na perfeição com o traço e os contrastes de Muñoz. Os dois haviam de aprofundar a sua cumplicidade. Desenhou sem parar nos anos seguintes, "Le Bar à Joe", "Billie Holliday", "Carnet Argentin", livros ou recolhas que mostram um autor fascinado pelo desenho. E com tudo o que pode esconder-se nas suas sombras.

JORNAL “I” DE 09/10/2009.
ESPECIALISTA DE BD
Cristovão Gomes
Edgar P Jacobs: Bel canto
TIVESSE a vida corrido bem a Edgar P. Jacobs (1904-87) e nunca teríamos e conhecido Blake e Mortimer. Afinal era a ópera que lhe interessava. Isso e uma promessa feita aos 19 anos: que nunca havia de trabalhar num escritório. Fez tudo para se aproximar do palco; pintou e construiu cenários, transportou material e mudou lâmpadas. Em 1929 a vida sorriu-lhe e ele recebeu uma medalha de excelência em canto clássico. Mas a Grande Depressão arruinou-lhe as esperanças operáticas. Virou-se então para outro talento, o desenho. A sua oportunidade veio com um revés: a ocupação da Bélgica pelas forças alemãs, Era preciso preencher o espaço que ficara livre com a proibição dos comics americanos. Fê-lo com "O Raio U", a sua primeira história. Participa, depois, na peça "Os Charutos do Faraó", de Hergé. Ficam amigos e começam a colaborar directamente nas histórias de Tintin. A personagem Bianca Castafiore, a cantora de ópera que ninguém suporta, é o registo da sua cumplicidade. Em 1946, na revista "Tintin" aparece "O Segredo do Espadão", primeira aventura de Blake e Mortimer. Transporta para as páginas que desenha o rigor cénico da ópera que adora. Por nove livros havia de espraiar-se, a série, sempre com o mesmo rigor formal, o mesmo cuidado na conjugação das cores e na capacidade de engendrar um enredo. Em 1970 publica o primeiro volume de "As 3 Fórmulas do Professor Sato". O segundo só veria a luz do dia depois da sua morte, concluído por Bob de Moor em 1990. Mas o libreto era seu.
Escreve à sexta-feira
Publicado por jmachado em outubro 12, 2009 09:02 PM | TrackBack