outubro 26, 2009

VIGÉSIMO ANIVERSÁRIO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE BD DA AMADORA – O PRINCÍPIO DO FIM DE UM FESTIVAL?

A abordagem que faço este ano sobre o FIBDA aqui no Kuentro, será bastante diferente dos anos anteriores. Será muito mais crítica, mais incisiva nas questões organizativas, mais caustica na apreciação das opções estruturais e expositivas. Tudo por causa dos vinte anos do festival. E por pensar que já chega desta visão redutora que o FIBDA tem da banda desenhada, apesar de propalar o contrário. A organização (leia-se o director do Festival) argumenta que é este o modo como a Câmara da Amadora entende que deve ser um Festival virado para a divulgação da banda desenhada. Mas nós, os utentes e, já agora, os agentes da banda desenhada que se produz neste país, os principais interessados num evento desta natureza, achamos que um Festival erigido todos os anos sob a égide da CMA, e portanto com dinheiros públicos, deve reflectir também as opções daqueles que contribuem em larga escala (pela sua actividade editorial e comercial, pagantes maioritariamente de IVAs e IRCs) para a sua concretização.

Portanto, o que vai seguir-se neste blogue, será uma apreciação muitíssimo crítica do FIBDA durante as próximas semanas.

cartaz2009.jpg

O 20º FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA 2009, iniciou-se neste fim-de-semana (23/25 de Outubro) com alguns problemas estruturais, que pensávamos terem sido já arredados dele. Em primeiro lugar o espalhar-se por toda a Amadora, em cinco ou seis núcleos, em vez de se concentrar num único, como tenho defendido desde sempre e como actualmente se faz um pouco por toda a Europa.

Depois, a escolha das exposições parece-me desajustada (mais uma vez) daquilo que deveria ser sobretudo uma mostra das actuais tendências da Banda Desenhada, tanto as internacionais como as portuguesas. Mas como ainda não tive tempo de ver uma única exposição (o trabalho no stand da Pedranocharco é duro), baseio-me apenas no programa recebido online – uma vez que este ano o programa impresso não esteve pronto para o primeiro fim-de-semana, o que também é muito lamentável e desagradável – reservo-me uma mais fundamentada opinião sobre este aspecto, lá mais para o fim do Festival.

E começa logo aqui - na questão do Programa e do Catálogo - o desrespeito pelo público: um Festival com esta envergadura (real ou imaginária) tem obrigatoriamente que ter – sem quaisquer tipos de desculpas – prontos a tempo, o Programa e o Catálogo! Pelo menos dois dias antes do início do festival. E não servem as desculpas de que a equipa é pequena: aumentem-na se for necessário, ou então não gozem férias nos três ou quatro meses antes do Festival, como costumam fazer.

Depois, e de novo, o profundo desrespeito pelos editores e livreiros de banda desenhada, ao encolher drasticamente o espaço reservado aos stands comerciais em cerca de 30 ou mesmo 40% do espaço atribuído nas três últimas edições.

No FIBDA de 2006 os editores e livreiros foram chamados, em reunião conjunta, para apreciarem a maqueta do núcleo principal e pronunciarem-se sobre as melhorias introduzidas no espaço comercial. Dada a excelente proposta apresentada, ninguém se opôs e as coisas não correram mal. O esquema manteve-se em 2007 e 2008, tendo os editores e livreiros de BD sido chamados de novo (desta vez individualmente) apenas em 2007 para se pronunciarem sobre o dito espaço. Como em 2008 o espaço se manteve, nada havia a obstar. Agora, este ano, valha-nos o deus de Saramago!! !

A implantação do “carro eléctrico” (onde no ano passado estavam os desgraçados dos autores a dar autógrafos) no meio do excelente espaço de circulação e de convívio, que era em 2007 e 2008 o centro comercial do FIBDA, destruiu completamente uma estrutura funcional e arejada que fornecia uma dinâmica própria ao conjunto. A justificação – dada por um elemento da organização – é que se trata de uma estrutura que já estava feita e precisa de ser rentabilizada! Então, digo eu, destruam essa estrutura que não serve para nada e mesmo perdendo no mau investimento feito no ano passado com ela, ganharão certamente em credibilidade perante o público e perante os agentes da banda desenhada em Portugal (os únicos agentes que garantem a circulação da BD neste país).

Devo acrescentar, já agora, que ontem, domingo dia 25 de Outubro, por volta das 17 horas, no espaço comercial do FIBDA, o ar era completamente irrespirável, dada a concentração de pessoas e o péssimo arejamento do local, devido não só à redução do mesmo como ao sobre-preenchimento com o dito “carro eléctrico”. Foi num ambiente digamos, asfixiante, que decorreu o dia com mais afluência de público deste primeiro fim-de-semana.

Foi também o dia mais frustrante em termos de vendas porque foi o dia dos papalvos, aqueles que vão com a família toda visitar o FIBDA, mas não têm qualquer afinidade com a BD, em vez de irem ao circo (que não há) vão ao FIBDA com a chavalada toda e olham, olham, perguntam preços e depois, não compram nada! Vão ver as exposições - quase em passo de corrida - e não vêem rigorosamente nada. Entram no auditório quando está vazio, para descansarem… Enfim, felizmente para eles até há pipocas no FIBDA, para entreterem as proles.

Mas todos os anos existe um dia destes no FIBDA, desde que me lembro, só espero que não haja outro este ano.

E por tudo isto, volto a perguntar, como há dois anos atrás: para que serve afinal um Festival de Banda Desenhada em Portugal? Para mostrar exposições vistas pelos organizadores em qualquer outro sítio por essa Europa fora e que não têm nada a ver com que se faz actualmente? (Qual é o interesse actual nos 50 anos do Asterix, senão o comercialismo obtuso e sem significado real no modo de fazer BD?) Para mostrar meia dúzia de autores de mangá sem qualquer conexão com a realidade portuguesa – e mesmo europeia, quando se celebram em França os vinte anos da edição de mangá –, ou para mostrar… quantos autores portugueses? Nem o José Carlos Fernandes quis vir a esta edição do FIBDA para dar autógrafos… e isto já diz muita coisa. E mesmo com a pobreza editorial que grassa entre nós nos últimos anos, vão-se fazendo algumas coisas: os autores não param e os editores tentam (mesmo com o risco de sobre-endividamento que isso acarreta) apresentar material impresso, que é o meio, por definição própria, da apresentação e circulação da BD, das obras geradas.

Parece-me que, chegado à vigésima edição, o FIBDA – e com ele a Câmara Municipal da Amadora – tem que se questionar, se quer continuar a ser um Festival amorfo, como o que tem sido, ou se quer passar a ser um Festival interventivo no panorama da BD portuguesa e, quiçá, ibérica (mas terá, neste caso, que comer o pãozinho que o diabo amassou para suplantar Barcelona, Galiza, etc…), marcando ritmos, dando a ver tendências, apostando em iniciativas de ponta nesta área da BD. Se o quiser fazer, terá indubitavelmente que substituir TODA esta equipa organizativa do Festival por gente verdadeiramente conhecedora e capaz, não por funcionários públicos que marcam o ponto – e a maior parte do tempo nem isso – para ganharem o ordenadozito ao fim do mês. Esta gente não entende a banda desenhada, senão pela rama, não compreende as mudanças, não tem qualquer sensibilidade para gerar sinergias e, sobretudo, não sabe trabalhar com os agentes que, a muito custo, fazem circular e mantêm viva a “ideia” da BD neste país – por enquanto e até ver.

fibda2009-1.jpg
Espaço Comercial do FIBDA 2009.

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O mesmo espaço em... 2007.

fibda2009-2.jpg

E fica aqui um pequeno video de circunstância, no final do domingo, dia 25 de Outubro, onde podem ver-se Andreia e Hugo Jesus escolhendo uvas, Hugo Teixeira, Mário Freitas, Rui Lacas, C.B.Cebulsky e Geraldes Lino conversando com Pedro Bouça...

VIDEO1FIBDA2009.jpg

Em próximo post vamos tentar perceber - sugerindo - como é que o espaço comercial do FIBDA podia ter ficado mais... desafogado!

Publicado por jmachado em outubro 26, 2009 05:22 PM | TrackBack
Comentários

Só posso concordar com tudo o que aqui foi dito, e esta é a primeira vez que estou presente como livreiro. O espaço é mau, os stands são maus e caros, e estão mal distribuídos e iluminados. De um lado a classe média-alta e do outro, a "favela".
Enfim, é o festival que temos...

Afixado por: Hugo Jesus em outubro 28, 2009 04:01 PM

Ontem estive no FIBDA para ver as exposições e os stands, mas a maioria destes, incluindo o da Pedranocharco, estavam fechados, o que muito lamento.

Queria comprar a colecção completa do BD Jornal e nada....

NOTA: metade dos links do blog já não funcionam...

Afixado por: almadan em outubro 28, 2009 08:30 PM

pois é, fala-se muito em venda de banda desenhada, da não ajuda aos autores nacionais, etc e tal e... stands fechados.

Afixado por: mafalda em outubro 28, 2009 09:59 PM

Caro Machado Dias
Vejo que escreves no teu comentário sobre o FIBDA 2009 “Nem o José Carlos Fernandes quis vir a esta edição do FIBDA para dar autógrafos… e isto já diz muita coisa.”
Tens todo o direito de fazer críticas ao FIBDA 2009. Eu próprio ocupei muitas páginas do teu BDJornal e até do catálogo do FIBDA com os meus reparos ao festival, e se visitasse a edição deste ano até poderia concordar com algumas das falhas que apontas. Mas parece-me abusivo que utilizes a minha ausência no FIBDA 2009 como apoio à tua argumentação. Posso ter variados motivos para estar ausente do FIBDA 2009 (uma perna partida, a gripe A, o medo da gripe A, a nomeação para um cargo no novo governo) mas, não te tendo eu transmitido quais são esses motivos, não podes concluir que eu decidi não estar presente no festival deste ano por eu entender que este seria um fiasco – isso pressuporia, além do mais, que eu teria poderes para o saber com antecedência (poderes divinatórios que, apesar do que “O que está escrito nas estrelas” pode sugerir, não possuo).
Faço votos para que, apesar das deficiências e erros que apontas, o FIBDA corra o melhor possível para todos os envolvidos.
abraços
jcf

Afixado por: José Carlos Fernandes em outubro 29, 2009 10:20 AM

Só um apontamento em relação à questão do dia dos "papalvos" presente no artigo. Concordo que há muitas pessoas que abordam o festival sem qualquer tipo de relação prévia com o mundo da BD, encarando-o como um espaço porreiro para passar uma tarde com as crianças. Na minha óptica, e sendo este blog da responsabilidade de um comerciante do meio, isto deveria ser visto como uma oportunidade e não como algo negativo. Se o festival fosse unicamente orientado para quem já gasta rios de dinheiro em standing orders, supostos especialistas e viciados (aquilo que porventura alguns editores desejariam, pois torna a tarefa mais fácil...) este festival já teria morrido. Olha-se com respeito para a BD franco-belga e para a notoriedade que a mesma obtém junto do seu público fiel, mas aparentemente nada se aprende com o exemplo. A BD quer-se plural, livre e despretensiosa, por isso pense um pouco antes de catalogar os visitantes menos entruzados como papalvos. Visito o FIBDA desde o início e já tenho visto muitos editores papalvos e pouco humildes a fecharem portas. Quanto ao povo papalvo da Amadora, esse continua a marcar presença ano após ano.

Afixado por: Tiago em outubro 29, 2009 11:50 AM

pois, afinal há quem tenha de engolir as suas própias palavras. não estará o grande autor português José carlos Fernandes zangado com os editores e outros agentes da bd? é que alguns prometem e não cumprem outros ainda não pagaram, etc. afinal ele não está zangado com o fibda mas sim com os tais grandes agentes. os tais para os quais está tudo mal e depois vamos ver e são os primeiros a escorregar.

Afixado por: mafalda em outubro 29, 2009 09:36 PM

Ui. Ganda "cházada". De qualquer modo há que compreender que esse Festival só ainda tem 20 anos... é pouco pra aprender com os erros! Enfim, eu cá é que não digo mal porque há três anos que não ponho lá os pés.E não sei se volto a pôr enquanto o Festival não "voltar a casa". Não dá pra fazer um abaixo-assinado para fazerem obras na Fábrica da Cultura de modo a voltar a receber este e outros eventos? É que isto tem ido de mal a pior pelo que me apercebo! Saludos a todos ustedes ;)

Afixado por: Véte em outubro 30, 2009 12:07 AM

O facto de o autor ter cometido uma gaffe por excesso de voluntarismo não invalida algumas das as críticas justas que faz. Nomeadamente as que o próprio JCF ecou em tempos (a ano passado lembro-me de ler várias coisas nesse sentido, algumas bem mais contundentes), como o próprio confirma...O Festival de BD da Amadora é a melhor coisa em termos da divulgação de BD em Portugal (alguém duvida disto?), mas, tem tido recentemente o destino dos filmes de Woody Allen. Vê-se, mas... Por isso mesmo, pede-se mais do que uma defesa acéfala e corporativa. A dispersão, se é útil para o Município (sim porque há razões para maximizar estruturas que têm de ser compreendidas) de facto retira alguma profundidade ao evento. Apesar de ter um CNBDI Amadora não é Angoulême (onde se vai a tudo muito facilmente a pé) e talvez se pudesse pensar em núcleos mais temáticos para diferentes públicos. A expo do Oesterheld não ser central parece-me errado, não obstante o bom espaço do CNBDI. Podia ir para o CNBDI depois do Festival. O catálogo estar pronto a tempo também era bom. Mas isso acho que nem vale a pena... Verdade seja dita a maior parte dos editores também não cumpre esses prazos (embora aí o problema é deles, vendem menos). A solução para quem vem de longe é ir no último fim de semana, aí já saiu tudo (espera-se...). Bom Festival a todos

Afixado por: João em outubro 30, 2009 10:13 AM

Também não concordo com a existência de vários núcleos na Amadora. Em cidades como Beja, resulta. Na Amadora não.

Afixado por: Alberto Carvalho em outubro 30, 2009 02:58 PM

talvez a direccäo do festival se lembre de perguntar que festival queremos (ehehehe) ou entäo pedimos a beja para elevar a potencia juntar ao festival4 boas bandas para abrir em beleza em vez daqueles discursos à lambe botas de agradecimentos mutúos
ou comecamos outro festival em vez de criticar o que os outros fazem que vendo bem as coisas näo é facil de fazer, e gostos e opcoes de facto näo se discutem
podia existir de facto um 3 festival

Afixado por: gambuzina em outubro 31, 2009 01:53 PM

olá, este ano é a primeira vez que vou ao festival. tenho lá passado grande parte do tempo desde dia 23 e não sou nenhuma expert - nem pouco mais ou menos - em BD.
gostaria , no entanto, de apontar alguns aspectos positivos: parece-me inevitável existir exposições sobre autores/personagens mais comerciais. são eles que chamam muitas das pessoas que vão ao festival, grande parte crianças, com os pais ou com as escolas.
se uma criança por turma se surpreender com alguma coisa, ficar a conhecer um autor português de BD, ou, simplesmente, gostar de uma curta de animação completamente diferente dos desenhos animados que vê todos os dias na televisão, já é muito bom. e está nos pequeninos a possibilidade de abrir os olhares para a BD e para universos menos comerciais da BD.
isto está a acontecer. há crianças a aplaudir animações e a desenhá-las depois, no atelier de pintura. há miúdos a exigir aos pais ficarem mais tempo a desenhar; mais tempo nos filmes; mais tempo na exposição do Rei...!
se um festival, único na área metropolitana da capital de um país, não tem como objectivo principal tornar mais acessível a todos o conhecimento da Banda Desenhada, a BD torna-se um universo demasiado fechado e corre o risco de não se desenvolver;estagnar;morrer.

depois podem haver outros festivais mais "profissionais", que apostem na qualidade pela qualidade; que sejam mais incompreensíveis ou difíceis ao observador comum....
depois podem continuar a existir os jantares e outros encontros, tertúlias, mais fechados, mais... elitistas, de certa forma.

com isto não estou a dizer que não há erros ou falhas graves no festival... estou apenas a entender um certo ponto de vista; a achar necessária a divulgação da BD a toda a gente e para o seu próprio bem; a perceber a importância disto.

Afixado por: marta em novembro 2, 2009 12:10 AM

Independentemente de tudo, a Peste irá botar discurso no dia 8 pelas 18 e espalhar uma proto-publicação chamada PESTAINHA - é Pestinha lida à moda do Porto - e tem uma formidável inovação - será talvez o primeiro produto cultural português(?) a assumir a sua incompetência e amadorismo ( esta não é chalaça com a palavra "Amadora" ) - tem múltiplos defeitos e erros deliberados!!!

VAI EXPLICAR DEFINITIVAMENTE O FRACASSO DAS VENDAS DE BD EM PORTUGAL, bem como introduzir os conceitos de direita-carrascão e a nova banda musical desenhada pop/tencnorock de fusão REVOLTA TORTA

ATE LÁ
não é preciso avisar as autoridades de nada

Afixado por: A PESTE em novembro 6, 2009 07:49 PM
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