novembro 20, 2009

BDPRESS - RECORTES DE IMPRENSA #96 - ALGUNS RECORTES SOBRE O FIBDA 2009... E NÃO SÓ

Aqui ficam quatro textos que têm a ver com o FIBDA 2009, mas não só – de João Ramalho Santos (JL de 21 de Outubro) sobre o FIBDA e os livros BRK e Divide et Impera – Pedro Cleto (JN de 1 de Novembro) sobre os prémios do FIBDA 2009 - Pedro Cleto (JN de 2 de Novembro) sobre o próprio FIBDA e de Diana Garrido (jornal “i” de 6 de Novembro). Este último é uma entrevista com Benoit Peeters (que acabou por não vir ao FIBDA) e foi enviado pelo José Manuel Pinto.

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ESPECTRO

João Ramalho Santos

Quando se aproxima a vigésima edição do Festival de BD da Amadora é útil reflectir nas diferentes correntes de banda desenhada que, honra seja ao pluralismo do evento, têm sido acolhidas no certame ao longo dos anos. No entanto, é também justo sublinhar que esse acolhimento não tem sido sinónimo de um discurso consequente próprio, que capitalize o inegável potencial em termos de referência, a não ser em nichos localizados dependentes de vozes individuais fortes, como a BD nacional histórica (Leonardo De Sá) ou a BD experimental (Pedro Moura). Tudo o resto (e não é pouco) tem sofrido de uma programação importada, repetitiva, pontual, pouco ambiciosa e aparentemente apressada. Do ponto de vista pessoal considero que essa história menos feliz começa com a extraordinária oportunidade desperdiçada que (pense-se o que se pensar da ideia) foi o projecto das «100 BDs do Século XX», cuja gestão poderia ter colocado a Amadora no centro do debate sobre BD, um momento que se parece ter perdido. De qualquer maneira o evento mantém todo o interesse, sobretudo enquanto pretexto para apreciar edições ao longo de todo o espectro de possibilidades que compõem a BD. Até porque às vezes revelam surpreendentes afinidades em termos do que concretizam e do que deixam por concretizar.

Editado pela ASA o primeiro volume de BRK exprime as qualidades e defeitos já pressentidos aquando da sua serialização no BDJornal. Do ponto de vista de acção e entretenimento «puro» (difícil de medir já que não existe) BRK impressiona em termos de competência narrativa e planificação, quer ao nível do desenho (óbvias influências nipónicas e norte-americanas), quer do argumento. E não só porque a BD portuguesa tem sido notoriamente incompetente a produzir trabalhos deste género; BRK mereceria o elogio mesmo comparando com BDs de outros mercados, mais exigentes. Mas, nesse caso, a comparação tem de ser levada até ao fim. E o grande problema de BRK é também óbvio: neste volume não acontece quase nada, e o que acontece (um pouco na onda de Lost ou Heroes) não se percebe. Uma insuficiência que, por sua vez, exacerba os muitos clichés do argumento, de personagens a situações. Dir-se-á que esta é uma introdução ao universo, ou que o ritmo é semelhante ao dos modelos nos quais BRK se inspira. Tudo isso é verdade, mas a obra também tem de se adaptar ao formato e às realidades do mercado, e BRK terá de apresentar (rapidamente) um segundo volume mais consequente, de modo a concretizar aquilo que de bom indicou até agora.

Organizado por Pedro Moura Divide et Impera está nos antípodas de BRK, embora ambos tenham problemas de superfície. Reunindo trabalhos de autores que trabalham nas fronteiras da banda desenhada! ilustração, que questionam o esticar dos seus códigos representativos, e que estabelecem relações com outras formas de Arte, o livro corresponde a um catálogo da exposição homónima que teve lugar na Amadora. O trabalho dos autores seleccionados pode ser experimental, multi-referencial, propositadamente «inacabado» (como defende o texto), e certamente exige muito mais do que a linearidade de BRK. Mas há uma fronteira dúbia entre profundidade e obscurecimento, entre múltiplos significados e nenhum. Claro que um leitor pode sempre ser acusado de «não perceber», «não fazer o esforço necessário», «não possuir as ferramentas essenciais». Tudo isso é possível e defensável. Como também o é que, por vezes, o rei vai nu. Divide et Impera é um livro estimulante na mesma proporção em que frustra (e talvez seja esse o objectivo). No caso particular de Andrei Molotiu (e levando em linha de conta igualmente o recente Abstract Comics, por si editado) há uma tentativa constante de aproximação à ARTE-com-maiúsculas (quer no estilo, quer no tom, quer no formato) que me parece particularmente inútil, porque subserviente. Do mesmo modo, e embora tragam uma variedade temática de género ao projecto, as colagens algo óbvias de Aerim Lee pouco estimulam. Já as citações de Frédéric Couché ou Ilan Manouach (sobretudo o primeiro) têm outro interesse, ao surpreenderem nas associações que propõem sobre as fronteiras, no caso entre o «concreto» e o «grotesco». Um grotesco concretizado tout-court por Fábio Zimbres e André Lemos, «simples» e circular o primeiro, ajoujado de referências o segundo, embora se liberte decisivamente em peças como Solidesque. Mas são as surpreendentes e delicadas atomizações-reconstruções-associações sobre «vazio» de Warren Craghead III a valer o projecto, como já tinham valido a exposição homónima.

Parece hoje evidente que nos grandes festivais deBD (Amadora, mas também Beja) há hoje um discurso forte e sólido num dos extremos daquilo que pode ser a banda desenhada, balizado por Pedro Moura (no sentido em que aprofunda autores como Farrajota ou Figueiredo Costa, e, mais importante, toma legível Isabelinho). Simplesmente não chega. Não deixa de ser irónico que este seja hoje (isto é discutível, mas comprovável) o discurso predominante em tomo da BD em Portugal, tal como a BD alternativa por aqui Impera. Qualquer alternativa terá, forçosamente, de ser menos «alternativa». Talvez fosse útil concretizar mais esse discurso noutras formas de BD, trazer para os Festivais de forma consequente autores que (de Trondheim a Seth e Mazzucchelli) cruzam referenciais e obrigam a pensar sem exasperar (sempre).•

BRK VOLUME 1. Argumento de Filipe Pirw, desenhos de Filipe Andrade.
ASA, 86 pp, 16,50 euros.

DIVIDE ET IMPERA. Visão de Pedro Moura, trabalhos de Warren Craghead III, Fábio Zimbres, Frédérie Coehé, Andrei Molotiu, Aerim Lee, André Lemos, Ilan Manouaeh. Montesinos, 110 pp, 15 euros.

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Jornal de Notícias - Secção Cultura de 1 de Novembro de 2009

JOSÉ CARLOS FERNANDES E LUÍS HENRIQUES VENCEM NA AMADORA

F. Cleto e Pina

O álbum “A Metrópole Feérica - Terra Incógnita, vol. 1” (Tinta da China) foi o grande vencedor dos Prémios Nacionais de BD, anunciados ontem no Amadora BD 2009, ao arrecadar os galardões para Melhor Álbum Português, Melhor Argumento (para José Carlos Fernandes) e Melhor Desenho (Luís Henriques).

Segundo o argumentista, esta é uma série de “histórias curtas surreais, que têm em comum cidades ou lugares imaginários”, mas que são muito próximos da nossa realidade, através das quais explora até à exaustão pressupostos absurdos tornados incomodamente possíveis ou exagera tiques de modelos governativos totalitários, que provocam sorrisos, mas também obrigam pensar até que ponto o controle do indivíduo não pode tornar-se uma obsessão perigosa, num tempo em que é tão fácil ser escrutinado cada instante do nosso quotidiano…

Em termos nacionais, o grande derrotado, acaba por ser “A Fórmula da felicidade, vol. 1” (Kingpin Books), da autoria de Nuno Duarte e Osvaldo Medina, igualmente nomeado nas três categorias e sem dúvida um dos grandes álbuns portugueses do último ano.

Outro vencedor foi o primeiro tomo de “A Teoria do Grão de Areia” (ASA), de Schuiten e Peeters, distinguido como Melhor Álbum Estrangeiro e também com o Prémio Juventude. A mesma editora arrecadou ainda o troféu Clássicos da 9ª Arte, por “Blake e Mortimer - A Marca Amarela”, de Edgar P. Jacobs.

“Cão fedorento” (Gradiva), de Mike Peters, foi eleito o Melhor Álbum de Tiras Humorísticas, a Cristina Sampaio foi entregue a distinção para Melhor Ilustração para Literatura Infantil, pelo livro “Canta o Galo Gordo” (Editorial Caminho), enquanto que a escolha de Melhor Fanzine recaiu no “Venham + 5” (Bedeteca de Beja), coordenado por Paulo Monteiro.

O Amadora BD 2009, a decorrer no Fórum Luís de Camões até dia 8 de Novembro, tem como destaques hoje as presenças de Maurício de Sousa, autor da Turma da Mônica, de Achdé, actual desenhador de Lucky Luke, e de Giorgio Fratini, autor do surpreendente e muito interessante “Sonno Elefante – As paredes têm ouvidos” (Campo de Letras), sobre as memórias do edifício que serviu de sede à PIDE.

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Jornal de Notícias - Secção Cultura de 2 de Novembro de 2009

AMADORA BD VAI A MEIO: CENTENAS DE ORIGINAIS E CONCORRIDAS SESSÕES DE AUTÓGRAFOS

F. Cleto e Pina

O Amadora BD 2009 cumpriu ontem o seu segundo fim-de-semana, o que já permite um balanço, positivo mas com aspectos a corrigir, da edição em que se cumprem 20 anos da grande festa nacional dos quadradinhos.

Desde logo, é notório que a efeméride não teve a pompa que o passado do festival justificava, faltando-lhe, principalmente, (mais) um ou outro nome sonante. O que não invalida a qualidade da programação nem um dos grandes méritos do evento, as centenas de originais expostos, alguns enquadrados por apelativas cenografias, como as exposições de Rui Lacas (autor da conseguida linha gráfica do evento), Giorgio Fratini, António Jorge Gonçalves ou Osvaldo Medina. Ou os que valem só por si, como os belíssimos desenhos de Emannuel Lepage ou a mostra de BD polaca, a surpresa deste ano pela diversidade e riqueza gráfica.

Neste contexto, pela negativa, surge a mostra mais mediática do festival, que percorre meio século de carreira de Maurício de Sousa, homenageado com o Troféu de Honra dos 20 anos, “perdida” nos fundos do piso inferior e onde os muitos originais, dos primórdios até ao beijo da Mônica e do Cebolinha na Turma da Mónica Jovem, mereciam um melhor enquadramento cénico, pese embora a presença de um gigantesco coelh(inh)o Sansão, e que a sua especificidade até facilitava. Por si só, justificava-o a popularidade do pai da Mónica, revelada, no sábado, pela fã que se desfez em lágrimas perante o abraço do homem que há 10 anos lhe enviou uma revista autografada em resposta a uma carta ou pelo facto de a fila de autógrafos para o autor ter sido fechada antes ainda de ele chegar ao recinto! Filas bem grandes tiveram também Boucq e Achdé, este mesmo sem a organização ter feito qualquer alusão ao facto de ele ser o actual desenhador de Lucky Luke, o que aponta outro aspecto a rever: a ausência de informações relevantes sobre os convidados.

Outra nota negativa vai para a arquitectura da zona comercial, com algumas bancas minúsculas e outras interiores e com pouca visibilidade, num menosprezo de um factor importante porque se os originais de BD são belos e atractivos, esta arte é antes de tudo para fruir através da leitura da obra impressa. E nisso, o Amadora BD continua a afirmar-se como data de eleição para o lançamento ou divulgação de obras nacionais, como “Mucha” (Kingpin Books), de David Soares e Osvaldo Medina, “Asteroid Fighters”, de Rui Lacas, “Israel Sketchbook”, de Ricardo Cabral, “BRK” (todos da ASA), de Filipe Andrade e Filipe Pina, ou “Bang Bang Ultimate #1” (Pedranocharco), de Hugo Teixeira, ilustrativas da diversidade de propostas da nossa BD e cujos autores também provocam concorridas sessões de autógrafos.

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JORNAL “I” DE 06/11/2009.

AS CIDADES UTÓPICAS DE SCHUITEN E PEETERS

Os vencedores do Melhor Álbum Estrangeiro de BD falaram ao i sobre
"As Cidades Obscuras", o prémio e a inspiração que mantêm há 29 anos

Diana Garrido
diana.garrido@ionline.pt

O escritor Benoit Peeters é um gigante da BD, mas quem fala com ele não dá por isso. Disponível, falou com o i no táxi, ao telefone, e nem quando chegou a altura de pagar aproveitou para despachar a jornalista. "Ligue-me dentro de dois minutos." No domingo estará com Schuitten no festival de BD da Amadora, para receberem o prémio de melhor álbum.

Trabalham juntos desde 1980 e têm 12 livros da série "As Cidades Obscuras". Não vos começa a faltar inspiração?

Somos amigos há mais de 40 anos e sempre que estamos juntos falamos de novas histórias. E na verdade não são assim tantos livros. Dá um cada dois ou três anos. Temos muito tempo para pensar em coisas novas. E o mundo à nossa volta está em constante mudança e nós mudamos com ele. Nos anos 80 criticávamos o urbanismo moderno, mas depois o mundo mudou e houve outras questões que se tomaram importantes, como o fim das fronteiras e os problemas ecológicos, como na "Teoria do Grão de Areia". Os nossos livros são metáforas e o mundo real aparece como inspiração.

Como é o vosso processo criativo?

A concepção e organização do livro é feita em conjunto. Temos de ver o mundo imaginário que criamos, da mesma forma, temos de o sentir da mesma maneira, em todos os pormenores. Mesmo tratando-se de um universo fantástico, tudo tem de ser coerente e passível de funcionar ou acontecer. Não é ficção científica nem pura fantasia: e uma história fantástica muito próxima da realidade e do nosso mundo. E deixamos sempre espaço para o elemento surpreso. Sabemos para onde queremos ir mas não sabe mos totalmente como lá vamos parar.

E este último livro, "A Teoria do Grão de Areia"?

Foi resultado de um debate de ideias entre os dois. Algumas das personagens são inspiradas em amigos, quer fisicamente quer em traços de personalidade. Alguns até posaram para que o François os desenhasse. E isso é importante, porque queremos que algumas das nossas personagens sejam mais simpáticas.

O vosso trabalho é discutido em universidades e sites. Qual é a sensação?

É maravilhoso, e por isso tentamos não desapontar nem desiludir os leitores, fazendo de cada livro algo necessário, e realmente novo. Algo em que possam acreditar. Seria muito triste criar um mundo em que só eu e o François acreditássemos.

Vem a Portugal receber o prémio de melhor BD estrangeira para o último livro. É mais um entre muitos?

Não! Além de ser o primeiro prémio que recebemos por "A Teoria do Grão de Areia", Portugal sempre foi dos países com maior interesse no nosso trabalho e isso é muito curioso. Talvez tenhamos alguma sensibilidade portuguesa, não sei. Tivemos prémios em França e na Bélgica, mas aí é diferente, mostra que o nosso trabalho vai alem da nossa vizinhança e que tem a sua própria força.

Este livro é o último da série?

Não. Acabamos um agora (ainda não posso revelar o titulo) e daqui a uns meses vamos começar outro projecto. Criámos um universo e temos a possibilidade de fazer sempre coisas novas. Não somos prisioneiros de um conceito fechado. O único limite é a nossa imaginação e o nosso talento. Podemos até fazer uma história de detectives que tenha lugar nas Cidades Obscuras. Porque não? -

François Schuiten
Nasceu em 1956, em Bruxelas, e é o desenhador de serviço. Trabalha em cenografia e pelo conjunto do seu trabalho recebeu o prémio Angoulême, que é o equivalente ao Óscar da BD.

Benoit Peeters
Nasceu em Paris também em 1956 e é o responsável pela escrita. Publicou dois romances e experimentou vários géneros literários. É especialista em Hergé, sobre quem publicou duas obras.

A TEORIA DO GRÃO DE AREIA
Schuitten-Peeters
(Edições ASA - 17,50 euros)
Abeels colecciona uma série de pedras que aparecem misteriosamente no seu apartamento. Uma mulher acumula grandes quantidades de areia. Maurice perde peso sem emagrecer. Com o passar dos dias, os fenómenos estranhos multiplicam-se.

Publicado por jmachado em novembro 20, 2009 01:00 PM | TrackBack
Comentários

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Afixado por: ncdhoxjwj em novembro 28, 2009 03:22 AM
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